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2ª Resposta de Ingersoll
2ª Resposta de Ingersoll

Carta para o Reverendo Field - 1887



Meu caro Sr. Field:

Com muito prazer, li sua segunda carta, na qual o senhor parece admitir que os homens diferem até mesmo sobre religião, sem ser responsáveis por esta diferença; que cada homem tem o direito de ler a bíblia por si mesmo, e expressar livremente as conclusões às quais ele chega, e que não é apenas seu direito, mas sua obrigação dizer a verdade; que os cristãos dificilmente podem ser felizes do céu, sabendo que seus entes queridos na terra estão sofrendo com os perdidos; que não é um crime investigar, pensar, raciocinar, observar, e ser guiado pelas evidências; que a credulidade não é uma virtude, e que a boca aberta da ignorância não é a única entrada para o paraíso; que crença não é imprescindível para a salvação, e que nenhum homem foi feito para sofrer a condenação eterna por ter expressado suas convicções intelectuais.

O senhor parece admitir que nenhum homem pode ser corretamente considerado responsável por suas idéias; que o cérebro pensa sem pedir nosso consentimento, e que nós acreditamos ou deixamos de acreditar sem um esforço da vontade.

Eu me congratulo com os avanços que o senhor fez. O senhor não só admite que nós temos o direito de pensar, mas também que nós temos o direito de expressar nossas idéias honestas. O senhor admite que o mundo cristão não mais acredita na fogueira, no calabouço, no esmagador de polegares. Mas o mundo cristão desistiu do seu Deus? Será que o homem se tornou mais misericordioso do que seu criador? Se o homem não mais tortura seu semelhante por diferença de opinião, será que um Deus de infinito amor torturaria seus filhos pelo pecado da não crença? Será que o homem superou a inquisição, mas um Deus infinito seria o guardião de uma penitenciária infinita? Os muros das velhas masmorras caíram, e hoje o sol visita as celas onde, no passado, bravos homens pereceram na escuridão. Será que Jeová faz a manutenção das celas da perdição para sempre, e serão seus filhos os eternos prisioneiros?

Parece difícil para o senhor perceber a condição mental de quem considera todos os deuses como substancialmente o mesmo; ou seja, daqueles os consideram como mitos e fantasmas nascidos da imaginação – personagens da ficção religiosa da nossa espécie. Para o senhor parece estranho que um homem pense mais em Júpiter do que em Jeová. Considerando ambos como criações da mente, eu escolho entre os dois e prefiro o deus dos gregos, pelo mesmo motivo que eu considero Portia melhor do que Iago; e na verdade eu os considero todos filhos da imaginação, ou fantasmas nascidos dos medos e esperanças humanas.

Certamente nada está mais distante de minha mente do que ferir os sentimentos de alguém, por falar no Deus presbiteriano. Eu simplesmente pretendi falar no Deus dos presbiterianos. Certamente o Deus dos presbiterianos não é o mesmo Deus dos católicos, ou o Deus dos muçulmanos ou hindus. Ele é uma criação especial, adequada apenas a certas mentes. Estas mentes se reuniram e formaram, o que hoje se conhece como a igreja presbiteriana. Na verdade, não se encontram duas igrejas que tenham precisamente o mesmo Deus; da mesma maneira, dois seres humanos não podem conceber precisamente a mesma Divindade. Em cada Deus de um homem existe, para dizer o mínimo, uma parte desse homem. Quanto mais baixo um é homem, mais baixa será sua concepção de Deus. Quanto mais elevado um homem, mais elevada deverá ser sua Divindade. Um selvagem que adorna seu corpo com um cinturão no qual estão pendurados os escalpos dos inimigos mortos em batalha, não tem nenhuma concepção de um Deus amoroso e misericordioso; seu Deus será necessariamente tão vingativo, tão desumano, tão infame como o Deus de João Calvino.

O senhor não julgou muito bem as minhas idéias. Eu não detesto os presbiterianos. Eu detesto, com todo o coração, a crença dessa igreja, e eu desprezo com todo o coração aquele Deus descrito na Confissão de Fé. Mas alguns dos meus melhores amigos que tenho no mundo são afetados pela perturbação mental chamada de presbiterianismo. Elas são vítimas do consolo da crença de que a imensa maioria de seus semelhantes estão condenados ao tormento eterno, para que seu criador seja para sempre glorificado. Eu já afirmei muitas vezes, e digo novamente, que eu não desprezo um homem por causa do seu reumatismo; eu desprezo o reumatismo porque ele aflige o homem.

Mas eu insisto que os presbiterianos aparentemente apropriaram para si mesmos o seu Supremo Ser, e que eles alegam e têm alegado, ser o objeto especial do seu favor. Eles alegam ser os eleitos, e eles insistem em dizer que Deus os olha com um cuidado especial. Eles afirmam que a luz da natureza, sem a tocha da crença presbiteriana, é insuficiente para guiar a alma aos portões do céu. Eles insistem em dizer que mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Cristo, ou que nunca ouviram falar do Deus presbiteriano, serão eternamente condenados; e eles não apenas alegam isto, mas seus destinos irão ilustrar não só a justiça, mas também a misericórdia de Deus. Não apenas isto, mas eles insistem que a moralidade de um não crente é desagradável a Deus, e que o amor de uma mãe não convertida por seu filho indefeso não é nada mais do que um pecado.

Quando encontro um homem que realmente acredita na crença presbiteriana, penso em Laocoon. Penso estar diante de um ser humano desamparado, e enrolado numa imensa serpente venenosa. Mas eu me congratulo com o senhor sinceramente, por repudiar esta crença infame e selvagem; que o senhor agora admite que a razão é para ser exercida; que um Deus não torturará um homem por possuir uma dúvida honesta, e que num mundo vindouro, "todo homem será julgado de acordo com os atos praticados pelo corpo".

Deixe-me citar sua linguagem exata: "Eu acredito que no mundo futuro todo homem será julgado de acordo com os atos feitos no corpo." O senhor não percebe que já deu adeus à igreja presbiteriana? Nesta sentença o senhor jogou fora a expiação, negou a eficácia do sangue de Jesus Cristo, e negou a necessidade da crença. Se seremos julgados pelos atos feitos no corpo, este é o fim do esquema da salvação. Eu honestamente me congratulo por saber que o senhor repudia a crença selvagem do calvinismo.

Devo dizer também que me deu imensa satisfação saber que o senhor jogou fora, com um alegre estremecimento, aquela infâmia das infâmias, o dogma do sofrimento eterno. Eu tenho criticado a crença humana; eu tenho denunciado todas as crenças que se enroscam com esta víbora; eu tenho denunciado todo homem que a prega, o livro que a contém, e com todo o meu coração, o Deus que o ameaça; e é com prazer que vejo o editor do "New Yorker Evangelist" admitir que cristãos devotos não acreditam nesta mentira, e cita as palavras do pastor da Igreja Anglicana, que todos homens serão no final recuperados e feitos felizes.

O senhor encontra esta doutrina de esperança na crença presbiteriana? Será que esta estrela, que lança luz em todo túmulo, é encontrada na sua bíblia? Será que Cristo tinha na mente a brilhante verdade de que todos os filhos do homem serão, no final, preenchidos pela alegria, quando ele exclamou estas palavras: "Afastai-vos de mim, amaldiçoados, para o fogo eterno, preparado pelo diabo e seus anjos!"? o senhor encontra nesta chama alguma fagulha der esperança, ou as flores da promessa?

O senhor supõe que é possível que "o de má índole e incurável poderá ser aniquilado", e afirma que tal destino não pode trazer nenhum terror para mim, já que considero a aniquilação como o destino de todos nós. Vamos examinar esta posição. Por que um Deus criaria homens e mulheres sabendo de antemão que eles se tornariam "inexoravelmente maus"? O que o senhor acharia de um mecânico que jogasse fora toda sua produção, com a justificativa de que ela seria "inexoravelmente ruim"? O senhor consideraria este mecânico como alguém infinitamente sábio? Será que a infinita justiça aniquila o trabalho do infinitamente sábio? Será que Deus, como um médico incompetente, sepulta seus erros?

Alem disso, que razão tem o senhor em dizer que eu "vejo a aniquilação como o destino de todos nós"? Há esta afirmação em algum lugar na minha resposta? O senhor a encontra em algum dos meus trabalhos? O senhor já encontrou nos meus escritos, algo em que digo que acredito na aniquilação? Não é verdade o que digo agora, o que sempre tenho dito, que eu não sei? Será que a falta de conhecimento a respeito do destino da alma humana implica na crença na aniquilação? Não implicaria ela, igualmente, na crença na imortalidade?

O senhor tem sido – pelo menos até recentemente – um crente na inspiração da bíblia e na verdade, de cada uma das suas palavras. O que o senhor acha disto: "Porque aquilo que acontece aos filhos do homem acontece às bestas; só uma coisa acontece a eles: sim, eles todos têm uma respiração; de tal maneira que um homem não tem precedência sobre uma besta". O senhor vê que o escritor inspirado não está apenas satisfeito em admitir que ele não sabe. "Como a nuvem é consumida e se dissipa; também aquele que desce ao túmulo não voltará mais." Não seria cruel para um homem inspirado atacar uma crença sagrada?

O senhor parece surpreso que eu me refira à doutrina do tormento eterno como "A nuvem negra de tempestade que escurece todo o horizonte, lançando suas sombras poderosas sobre a vida atual e a vida futura". Se esta doutrina for verdadeira, o que mais merece atenção na mente humana? Ela é a escuridão que apaga qualquer estrela. É o abismo no qual qualquer esperança deve perecer. Mostra um universo sem misericórdia e sem perdão – um futuro sem o raio de luz, e um presente sem nada além do medo. Ela faz do céu uma impossibilidade, faz de Deus um monstro infinito, e o homem uma eterna vitima. Nada pode redimir uma religião na qual este dogma é construído. Agarradas a ele estão todas as serpentes da fúria.

Mas o senhor abandonou esta infâmia, e admite que deveremos ser julgados de acordo com nossas ações feitas pelo corpo. Nada parece tão evidente quanto o fato de que um ser finito não pode cometer um pecado infinito; nem um ser finito pode fazer algo de infinitamente bom. Ou seja, ninguém pode merecer, por qualquer ato, uma punição eterna, e ninguém pode merecer uma recompensa eterna. Se seremos julgados pelos atos do corpo, o velho inferno tradicional, assim como o céu, tornam-se impossíveis.

E também o senhor reconhece a grande e esplêndida verdade de que o pecado não pode ser o resultado de uma convicção intelectual. Este é o grande primeiro passo para a liberdade da alma. O senhor admite que não há moralidade ou imoralidade na crença – ou seja, na simples operação mental de pesar evidências, em observar fatos, em chegar a conclusões. O senhor admite que essas coisas não possuem pecado nem culpa. Se todos os homens concordassem, nunca teria havido perseguição religiosa – a inquisição não teria sido construída, e a idéia do tormento eterno nunca teria poluído o coração humano.

O senhor escapou das paixões para encontrar o que o senhor gosta de chamar de "pecado" e "responsabilidade"; e o senhor diz, falando do ser humano: "mas se ele é afetado pela paixão de tal modo que não consegue ver as coisas corretamente, então ele é responsável". Podemos supor que o uso da expressão "não pode" é inconsistente com a idéia de responsabilidade. O que é a paixão? Há certos desejos, emoções que apressam o coração – desejos que enchem o cérebro de sangue, com fogo e chamas – desejos que recebem a mesma relação de julgamento com que uma tempestade e ondas recebem a de uma bússola de navio. Seria uma paixão algo que surge por necessidade? Haverá uma causa adequada a cada efeito? Pode o senhor, de alguma maneira, conceber um efeito sem uma causa, ou pode conceber um efeito que não é uma causa, ou pode imaginar uma causa que não é um efeito? Não é a história da civilização, a gradual e real emancipação do intelecto, ou do julgamento, os mestres da paixão? Não é do homem civilizado, em cuja razão se coloca o monarca coroado do seu cérebro – e cujas paixões são suas escravas?

Quem conhece a força da tentação para os outros? Quem sabe o quão pouco tem sido resistido por aqueles que suportam, e o muito que resistem aqueles que caem? Quem sabe se é a vitória ou a derrota quem faz o mais bravo e o mais galante lutador? Ao julgar nossos semelhantes, devemos levar em consideração as circunstâncias dos antecedentes, da raça, da nacionalidade, da profissão, da oportunidade, da educação, e de milhares de influências que tendem a moldar o caráter do homem. Esta visão é a mãe da caridade, e faz do Deus presbiteriano um ser impossível.

No final o senhor vê a impossibilidade do perdão. Ou seja, o senhor percebe que depois do perdão, o crime permanece, e seus filhos, que são as conseqüências, ainda permanecem vivos. O senhor reconhece a falta de filosofia nesta doutrina. O senhor ainda acredita naquilo que chama "o perdão dos pecados", mas percebe que o perdão não altera o curso da natureza, e nem pode evitar os acontecimentos da lei natural. O senhor também admite que se um homem vive depois da morte, ele preserva sua identidade pessoal, sua memória, e que as conseqüências de suas ações ainda o seguem por toda a eternidade. O senhor admite que conseqüências são imortais. Depois de admitir isso, para que serve a velha idéia de perdão dos pecados? Como o criminoso pode ser lavado e purificado com o sangue de outro? Apesar desse perdão, apesar desse sangue, o senhor tomou pé das conseqüências, como o cão de Actreon, que segue mesmo um presbiteriano, mesmo aqueles eleitos, dentro dos portões do céu. Mesmo tentando ser lógico, o senhor deve admitir que as conseqüências das boas ações, tal qual anjos alados, perseguem até mesmo o ateu dentro dos portões do inferno.

O senhor tem tido a coragem de suas convicções, e tem dito que seremos julgados de acordo com nossas ações feitas em nosso corpo. Por este julgamento, estou tentando agüentar. Mas querendo ou não, devo suportar, porque não há poder, ou nenhum Deus, que possa se colocar entre mim e as conseqüências dos meus atos. Não quero nenhum céu que eu não tenha conquistado, nenhuma felicidade que não mereça. Eu não quero me tornar um pobre eternamente; nem quero estender mãos indignas pedindo esmolas.

Meu caro senhor Field, o senhor superou sua crença – como todo presbiteriano deveria fazer. O senhor é muito melhor do que o espírito do velho testamento; muito melhor, em meu julgamento, até mesmo do que o espírito do novo testamento. A crença que o senhor abandonou que agora repudia, afirma que um homem pode ser culpado de qualquer crime – que ele pode levar a esposa à insanidade, que seu exemplo pode levar os filhos a uma penitenciária, ou para a forca, e entretanto, na última hora ele pode, pelo que é chamado de "arrependimento", ser completamente lavado e purificado pelo sangue de um outro, e ser coroado com os louros da paz infinita. Não apenas isto, mas esta crença ensina que este desgraçado pode olhar para esta pobre terra e ver sua esposa, a quem ele prometera amar e proteger, no hospício, cercada de serpentes imaginárias, lutando na escuridão da noite, tornada insana por sua crueldade – esta crença ensinou e ensina que ele pode olhar para cá e ver seus filhos em prisões, nos cadafalsos com o laço no pescoço, e que esta cena não lhe traria sequer uma sombra de tristeza na sua face feliz e redimida. É esta doutrina, é este dogma – tão bestial, tão selvagem, que torna pobre qualquer vocabulário humano – que eu tenho denunciado. Todas as palavras de ódio, desprezo e antipatia que existam em todas as línguas e dialetos dos homens não são suficientes para expressar meu ódio, meu desprezo, e minha antipatia por esta crença.

O senhor afirmou que considera impossível não acreditar na existência de Deus. A esta afirmação não tenho nenhuma crítica a fazer. Sua mente é tal que a crença num Ser Supremo lhe traz satisfação e contentamento. Claro que o senhor não está considerando que possui algum crédito com esta crença, da mesma forma que o senhor não deveria ser recompensado por não acreditar em algo que não pudesse crer; da mesma forma que eu não deveria ser punido por não crer em algo em que não posso acreditar.

O senhor acredita porque vê o mundo que o rodeia com tantas adaptações entre meios e fins que isto lhe indica uma criação. Eu admito que quando Robinson Crusoe viu na areia as pegadas de um pé humano parecido, mas não idêntico ao seu, ele tinha razão em chegar à conclusão de que um ser humano estivera lá. A conclusão foi tirada da sua própria experiência, e estava dentro do âmbito de sua própria mente. Mas eu não concordo com o senhor que ele "soubesse" que um ser humano estivera ali; ele apenas tinha evidências suficientes para chegar a uma conclusão. Ele não conhecia as pegadas de todos os animais; ele não poderia saber que todos os animais, com exceção do homem poderia ter deixado as pegadas. Para que ele soubesse que se tratava de pegadas humanas, ele deveria saber que nenhum outro animal poderia deixar na areia a semelhança com este pé humano.

O senhor vê o que chama de evidência de inteligência no universo, e chega à conclusão de que deverá existir uma inteligência suprema. Sua conclusão é muito mais abrangente do que a premissa. Vamos supor, como Sr. Hume supôs, que exista um par de pratos de balança, um das quais está na escuridão, e o senhor percebe que um peso de um quilo, ou dez quilos que é colocado na extremidade que se encontra na luz, sobe; o senhor teria o direito de dizer que há uma força infinita no lado escuro, ou seria compelido a dizer que há um peso na ponta escura suficiente para levantar a extremidade no claro?

É ilógico dizer, por causa da existência da terra, ou daquilo que pode ser visto ao redor dela, que tenha de existir uma inteligência infinita. O senhor não sabe que nem a criação deste mundo, e de todos os planetas descobertos requereu uma força infinita, ou sabedoria infinita. Eu admito que seria impossível para mim, olhar para um relógio e chegar à conclusão de que não houve nenhum projeto na sua construção, ou que ele apenas surgiu. Eu não poderia achar que aquele objeto é fruto de algum capricho da natureza, nem poderia acreditar que todas as suas partes se juntaram casualmente. Não acredito no acaso. Mas existe uma grande diferença entre o que o homem fez e os materiais com os quais ele construiu as coisas que ele fez. O senhor acha um relógio, e conclui que ele exibe, ele mostra, um propósito. O senhor insiste que isto é tão maravilhoso que tem de ter um criador – em outras palavras, que ele é tão maravilhoso que não pode não ter sido construído. Então, o senhor encontra o relojoeiro, e diz, com relação a ele, que ele também tem de ter tido um criador – em outras palavras, que ele é tão maravilhoso que não pode não ter sido criado, porque ele é ainda mais maravilhoso do que o relógio. Na imaginação o senhor vai além do relojoeiro e chega ao criador que chama Deus, é então o senhor diz que ele criou o relojoeiro, mas ele próprio não foi feito, porque ele é maravilhoso demais para ter sido feito. No caso do relógio e do relojoeiro é a maravilha deles que sugere a criação. Mas no caso do criador do relojoeiro, a maravilha nega a criação. O senhor não percebe que este argumento destrói a si mesmo? Se a maravilha sugere a criação, ela pode progredir até que ela negue o que havia sugerido?

O senhor deve lembrar também, que o argumento da criação se aplica a tudo. O senhor não tem a liberdade de parar o nascer ou por do sol, ou o crescimento do milho, ou tudo o que adiciona felicidade ao homem; o senhor deve ir mais longe. O senhor deve admitir que um Deus infinitamente sábio e misericordioso criou as presas de uma serpente, o dispositivo com o qual o veneno é destilado, os ductos pelos quais ele é levado até a presa, e que a mesma inteligência deu a esta serpente o desejo de inocular esta substância mortal na carne do homem. O senhor deve acreditar que um Deus infinitamente sábio construiu este mundo, e que no processo de resfriamento, terremotos poderiam ocorrer – terremotos que devoram e engolem cidades e estados. O senhor vê sinais da criação num vulcão que emite rios de lava sobre os campos e casas dos homens? O senhor acredita mesmo que um Deus infinitamente bom criaria seres invisíveis para contaminar o ar, para habitar as águas, e finalmente atacar e destruir a vida do homem? O senhor vê os mesmos sinais de criação no câncer que vê no milho e trigo? Será que Deus criou os tumores para crescer em cérebros? Será por sua ingenuidade que ele criou a espécie humana de modo que milhares nascessem surdos e mudos, e milhões de idiotas? Será que ele plantou propositadamente nas mentes de muitos as sementes da insanidade? Será que ele cultivou essas sementes? O senhor vê sinais de projeto nisso?

O homem chama de bem aquilo que aumenta sua felicidade, e de mal aquilo que lhe traz dor. Nos velhos tempos, atrás do bem ele pôs um Deus; atrás do mal, um demônio; mas agora o mundo religioso é levado a admitir que Deus é o autor de tudo.

Eu mesmo não vejo nenhuma virtude numa epidemia – nenhuma misericórdia no raio que sai do céu e deixa a marca da morte no seio de uma mãe carinhosa. Não vejo nenhuma generosidade na fome, nenhuma bondade na doença, nenhuma piedade na pobreza e agonia. E, entretanto, o senhor diz que aquele ser que criou parasitas que vivem com a exclusiva incumbência de causar o mal – os seres responsáveis por todo o sofrimento da humanidade – e diz que ele tem uma "bondade comparada à qual todo o amor de todos os homens parece algo frio e fraco". De acordo com a doutrina do mundo religioso, este ser de infinito amor e bondade criou este mundo de tal modo que sua luz apagou, e deixou a grande maioria da raça humana tateando no caminho de dor sem fim.

O senhor insiste que o conhecimento de Deus – a crença em Deus – é a fundação da ordem social; e este Deus de infinita bondade deixa milhares e milhares de seus filhos sem nenhum sinal de revelação. Por que razão a infinita bondade deixaria a existência de Deus em dúvida? Por que ele deixaria milhões vivendo na selvageria, destruindo a vida de outros, devorando a carne de outros, e deixando sua existência como um segredo para o homem? Por que ele deixaria os selvagens dependendo do nascer e do por sol e nuvens? Por que ele deixaria suas grandes verdades para alguns profetas meio malucos, ou para uma igreja cruel, impiedosa e ignorante? A sentença "Há um Deus" poderia vir impressa em cada ramo de mato, em cada folha, em cada estrela. Um Deus infinito não teria desculpas para deixar seus filhos na dúvida e escuridão.

Há ainda uma outra questão. O senhor sabe que por milhares de anos homens adoraram bestas selvagens como deuses. O senhor sabe que por muitas gerações eles se ajoelharam para serpentes enroscadas, acreditando que fossem deuses. Por que o Deus real permaneceria escondido, e deixaria seus filhos pobres, selvagens e ignorantes a imaginar que ele fosse uma besta, uma serpente? Por que esse Deus permitiria que mães sacrificassem seus filhos, por que ele não saiu da escuridão? Por que ele não gritou para a pobre mãe, "Não mates teu filho!? Mantém-o nos teus braços; aperta-o no teu seio; deixa que ele seja o consolo dos teus anos decadentes. Não vejo nenhum deleite na morde de crianças; não sou aquele que supões que eu seja; não sou um monstro; não sou uma serpente; sou cheio de amor, carinho e misericórdia, e quero que meus filhos sejam felizes neste mundo"? Será que um Deus permitiria que uma mãe matasse o próprio filho com a idéia equivocada de que o Deus que exige sacrifícios, sente um carinho com relação à mãe "comparado com o qual, todo o amor de todos os homens parece fraco e frio"? Permitiria um bom pai que seus filhos matasse outros filhos para agradá-lo?

Há ainda uma outra questão. Por que Deus, um ser de infinita bondade, deixaria a questão da imortalidade ma explicada? Como explicar que não haja nada no velho testamento sobre issoi Como explicar que aquele que fez todas as constelações não colocou no céu a estrela da esperança? Como o senhor explica o fato de que não se encontra no velho testamento, desde o primeiro erro do gênesis até a ultima maldição de Malachi, uma cerimônia fúnebre? Não acha estranho que alguém no velho testamento não chegaria perto de um túmulo de um pai ou mãe para dizer: "Nós nos reencontraremos um dia"?

O senhor me surpreende dizendo que eu não sei nada sobre a imortalidade do que Cícero sabia. Isto eu admito. Não sei mais nem do que o mais simples selvagem, não mais do que um doutor da divindade – ou seja, nada.

Não é, portanto, um fato curioso que haja menos crença na imortalidade da alma entre as nações cristãs do que nas nações pagãs – que a crença na imortalidade, numa igreja ortodoxa, é pura especulação, comparada com as crenças da Índia, China ou ilhas do Pacífico? Compare a crença na imortalidade na América, dos cristãos, com aquela dos seguidores de Maomé. Os cristãos não choram ao lado de seus mortos? Será que um crente na imortalidade derramaria lágrimas? Na verdade, a promessa da eternidade é tão distante, e a morte tão próxima – os ecos das palavras ditas há mais de dezoito séculos se perderam com o som das lágrimas que caem nos ataúdes. E, no entanto, comparado com a crença no inferno, comparado com o presídio de Deus, como é extasiante a sepultura – a tumba sem um soluço, sem uma lágrima, sem um sonho, sem medo. Comparado com a promessa na imortalidade da crença presbiteriana, como a aniquilação parece bela. Para ser um nada – como isto é melhor do que ser um condenado eterno. Para ser pó inconsciente – como seria melhor do que ser um anjo desumano.

Não há e nunca houve, e nunca haverá qualquer consolo no cristianismo ortodoxo. Ele não oferece nenhum consolo a um homem bom e amoroso. Eu prefiro o consolo da natureza, o consolo da esperança, o consolo vindo da afeição humana. Eu prefiro o simples desejo e viver e amar para sempre.

Claro que seria um consolo saber que temos um "amigo Todo Poderoso" no céu; mas um amigo que não cuida de nós, que permite que sejamos atingidos por seus raios, congelados pelo seu inverno, esfomeados por sua fome, e deixados presos no seu inferno, é um amigo que eu não gostaria de ter.

Eu me lembro da "pobre mulher escrava sentada sozinha na sua cabana, depois de ter seu filho roubado;" e, meu caro Sr. Field, eu me lembro também que aquelas pessoas que roubaram seu filho justificavam sua ação lendo passagens das sagradas escrituras. Lembro que enquanto a mãe chorava, os ladrões, alguns deles cristãos, liam isto: "Compra os hereges ao redor, e eles deverão ser teus servos e servas, para sempre." Lembro também que os ladrões liam: "Servos deverão ser obedientes aos seus amos." E, eles diziam, esta passagem é a única mensagem do coração de Deus par consolar os escravos. Eu me lembro disso e me lembro também que a pobre mãe escrava de joelhos, emocionada e triste chamava o "Amigo Todo Poderoso", e eu me lembro que suas orações nunca eram ouvidas, de modo que seus soluços morriam no ar negligente.

O senhor me pergunta se eu "tiraria dessa pobre mulher este Amigo"? Minha resposta é esta: Eu daria a ela a liberdade; eu quebraria suas algemas. Mas deixe-me perguntar ao senhor: esse "Amigo Todo Poderoso" olhou para essa mulher que ele ama com uma afeição "perante a qual todo o amor e afeição humanos parecem pálidos e frios", a mulher que o amava, que teve o filho roubado? Seria esse "Amigo Todo Poderoso" importante para dela? Ela certamente preferiria o filho.

Como poderia o "Amigo Todo Poderoso" ver esta pobre criança sendo perseguida por cães – a criança cujo único crime era o amor à liberdade – como poderia vê-lo e tomar o partido dos cães? O senhor acredita que esse "Amigo Todo Poderoso" governa o mundo? O senhor realmente acredita que:

"Manda o navio negreiro percorrer de costa a costa,

Embandeirado com as asas do Espírito Santo"?

O senhor acredita que o "Amigo Todo Poderoso" assistiu a todas as tragédias que se desenrolaram nas selvas africanas – que ele assistiu às viagens dos navios negreiros, viu as misérias das viagens, ouviu os tiros de canhão, ouviu o sangue correndo, as faces de agonias de mulheres, e todas as lágrimas que eram derramadas? O senhor acredita que ele viu e presenciou todos esses acontecimentos e que ele, o "Amigo Todo Poderoso", olhava friamente para baixo e nem estendeu a mão para socorrer?

O senhor persiste, entretanto, em explicar as misérias do mundo argumentando que a felicidade não é o objetivo da vida. O senhor diz que "o verdadeiro sentido da vida é o caráter, e que nenhuma disciplina é severa o suficiente, se nos levar a sofrer e ser fortes". Sobre este assunto o senhor usa a seguinte linguagem: "Se o senhor pudesse, faria todo mundo feliz; não haveria mais pobreza, nem doenças nem dor". E isto o senhor considera uma "visão infantil, não compatível com um homem adulto". Deixe-me ler para o senhor uma outra "visão infantil" que o senhor encontrará no vigésimo primeiro capitulo de Revelação , supostamente escrito por São João, o divino: "E eu ouvi uma forte voz vinda do céu, que dizia, vigiai, os tabernáculos de Deus estão com os homens, e ele estará com eles, e eles serão seu povo, e o próprio Deus estará com eles, e será vosso Deus; e Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem dor, nem choros, e não haverá mais dor".

Se o senhor visitasse uma mulher vivendo nem cortiço, sustentando, com seu trabalho, sua pobre família – uma pobre família passando fome, costurando, seus olhos marejados de lágrimas – o senhor lhe diria que "o mundo não é um parque de diversões, no qual os homens devem ser mimados e estragados como crianças"? o senhor diria a ela que pensar num mundo sem pobreza, sem lágrimas, sem dor, é uma "visão infantil"? se ela lhe pedisse uma pequena ajuda, o senhor recusaria, com a desculpa de que ao ser ajudada ela perderia seu caráter? O senhor lhe diria: "Deus não quer que a senhora seja feliz; felicidade é algo de tolo; caráter é o que a senhora precisa; e Deus a colocou aqui com esses bebês famintos e desamparados, e ele colocou este encargo nas suas costas para que a senhora possa sofrer e ser forte. Eu poderia ajudá-la com satisfação, mas não posso alterar os planos traçados pelo "Amigo Todo Poderoso""? O senhor argumentaria de uma maneira, mas agiria de outra.

Eu concordo com o senhor que o trabalho é bom, que a luta é essencial; que o homem é feito homem lutando entre si e com as forças da natureza; mas há um ponto além do qual a luta não faz caráter; há um ponto em que a luta se torna falha.

O senhor pode conceber um "Amigo Todo Poderoso" que deforma seus filhos porque ele os ama? Permitiria ele que o inocente definhasse numa masmorra porque ele era seu amigo? Permitiria que o nobre perecesse no patíbulo, que o devotado e corajoso fosse queimado na fogueira, porque ele tinha o poder de salvar? Seria ele impedido pelo amor? Permitiria esse "Amigo Todo Poderoso" que milhões de crianças fossem escravizadas com o objetivo de que "o esplendor da virtude tivesse seu fundo negro"? o senhor insiste que "o sofrimento, pacientemente surgido, é um dos meios para as maiores elevações do caráter e o fim da maior felicidade;" o senhor não vê que o seu "Amigo Todo Poderoso" tem sido injusto para com os felizes – cruel para com aqueles que nós chamamos de bem-afortunados – que ele é indiferente com aqueles homens que não sofrem – que ele deixa todos aqueles felizes, prósperos e alegres sem caráter, e que no fim, de acordo com sua doutrina, eles serão os perdedores?

Mas, afinal, não há necessidade de levar adiante esta questão. Há um fato que destrói para sempre sua teoria – é o fato que milhões morrem na infância. Como eles ganham a "elevação do caráter"? Que oportunidade é dada a eles, para que "sofram e sejam fortes"? Admitamos que não sabemos. Digamos que os mistérios desta vida, do bem e do mal, da alegria e da dor, nunca serão explicados. Não teria o caráter importância no céu? Como será possível que anjos, vivendo numa "visão infantil", podem "sofrer e ser fortes"? O senhor não vê que, de acordo com sua filosofia, só os condenados podem crescer – apenas os perdidos serão sublimes?

O senhor parece não entender o que quis dizer quando me referia a alta filosofia. Quando esta filosofia é aceita, claro que haverá bem no mundo, haverá o mal, e ainda haverá o certo e o errado. O que é o bem? É aquilo que aumenta e felicidade dos seres vivos. O que é o mal? É aquilo que tende a aumentar o sofrimento, ou diminuir a felicidade dos seres vivos. O que é o certo? É a melhor coisa que se pode fazer em certas circunstâncias, -- ou seja, aquilo que pode ser feito para aumentar ou preservar a felicidade do homem. O que é o errado? É o que aumenta o sofrimento do homem.

O que o senhor chama de liberdade, escolha, moralidade, responsabilidade, não tem nada a ver com estas coisas. Não há nenhuma diferença entre necessidade e liberdade. Aquele que é livre, age por opção. Qual é a fundação dessa escolha? O que chamamos de liberdade é libertação de uma imposição pessoal – nós não queremos ser regidos pela vontade de outros. Para nós a natureza das coisas não parece ser um mestre – a natureza não tem vontades.

A sociedade tem o direito de se proteger, e aprisionar aqueles que agem contra seus interesses; mas não tem o direito de punir. Ela pode ter o direito de destruir a vida de alguém perigoso para a comunidade; mas o que tem a ver liberdade com isso? O senhor mata uma serpente venenosa porque ela sabia algo mais do que morder? O senhor aprisiona uma besta selvagem porque ela é moralmente responsável? O senhor não acha que o criminoso merece a piedade do virtuoso?

Eu desejaria que chegasse o tempo em que o indivíduo pode se sentir justificado – quando o indiciado que tenha usado os trajes da desgraça sente que ele tinha agido como deveria.

Há uma antiga oração hindu para qual eu chamo sua atenção: "Tem piedade, ó Deus, dos degenerados; tu já tivesses piedade dos justos fazendo-os justos".

Não é possível que tenhamos de achar que tudo foi produzido com propósito? Isto terminará, claro, na justificação do homem. Não seria isto uma coisa desejável? Não é possível que a inteligência possa, no final, elevar a espécie humana para uma sublime altura filosófica?

O senhor insiste, entretanto, que isto é calvinismo. Suponho que o senhor conheça calvinismo – mas deixe-me dizer o que é. Calvinismo diz que o homem é o que ele tem de ser, e não obstante este fato, ele é responsável pelo que faz – ou seja, por aquilo que ele é compelido a fazer – ou seja, pelo que Deus faz com ele; e então, por fazer o que ele tem de fazer, um Deus infinito, que o força a fazer isto, faz justiça ao punir o homem no fogo eterno; isto não porque o homem tem de ser condenado, mas simplesmente para a glória de Deus.

Começando pela mesma declaração e que o homem faz o que ele tem de fazer, chego à conclusão de que devemos perceber neste fato justificação para cada indivíduo. E, no entanto, o senhor não vê diferença entre minha doutrina e o calvinismo. O senhor insiste que condenação e justificação são a mesma coisa. E, no entanto, a diferença é tão grande quanto pode expressar a língua. O senhor chama a justificação de todo o mundo "o evangelho do desespero", e a condenação de quase a totalidade da espécie humana como o "consolo da religião".

Depois de tudo, meu caro amigo, o senhor não vê que quando o senhor vem falar daquilo que é realmente bom, o senhor seja obrigado a descrever seu ideal de ser humano? É o humano de Cristo, e somente humano, que o senhor consegue compreender. O senhor fala de alguém que nasceu entre os pobres, que se esforçou para fazer o bem, que simpatizava por aqueles que sofriam. O senhor descreveu não apenas um, mas milhões de seres humanos, milhões de pessoas que levam luz para aqueles que vivem na escuridão; milhões que carregam crianças nos braços, milhões que choram para que outros sorriem. Nenhuma língua pode exprimir a bondade, o heroísmo, a paciência, o desprendimento de muitos milhões, vivos ou mortos, que preservaram na família dos homens a jóia do coração. O senhor reuniu num homem todas as virtudes da espécie humana, com todos os atributos de generosidade, paciência, bondade e amor e, no entanto este ser, de acordo com o Novo Testamento, tinha um outro lado do seu caráter. Na verdade, ele disse: "Vem a mim e eu darei descanso". Mas o que ele disse para aqueles que não foram a ele? O senhor oferece a esse homem todo o agradecimento pelo que ele fez de bom, mas eu agradeço não só por isso, mas por tudo. Meu coração reverencia todos os grandes, os despojados de vaidade, e os bons – para os fundadores de nações, cantores de canções, construtores de lares; para os inventores, os artistas que encheram o mundo de beleza, para os compositores de música, para os soldados do direito, para os fazedores de alegrias, para os homens honestos, e todas as mães amorosas da raça.

Compare, por um momento, tudo o que os salvadores fizeram, todas as dores e sofrimentos que aliviaram, -- compare isso com a descoberta da anestesia. Compare seus profetas com os inventores, seus apóstolos com os Keplers, os Humboldts e os Darwins.

Eu pertenço à grande igreja que toma o mundo nos seus limites pequenos; que relata o bem dos grandes e bons de todas as raças; que encontra alegria nos grãos de outro de cada crença, e enche de luz e amor as sementes do bem em cada alma.

A maioria dos homens é provinciana, estreita, toma um só partido, e só se desenvolve limitadamente. Numa nova área rural vemos freqüentemente uma pequena porção de terra, na qual um pioneiro construiu sua cabana. Esta pequena terra só é suficiente para sustentar sua família, ficando a maior parte da propriedade tomada pelo mato, no qual as serpentes rastejam e as feras se escondem. Assim é que fica a mente de um homem comum. Há pouco esclarecimento, pouco de remendos, de tamanho o suficiente apenas para praticar uma medicina rudimentar, ou vender bens, ou praticar a lei; ou pregar, ou fazer um negócio, apenas o suficiente para adquirir pão e alimentos, e proteção para a família, ficando a maior parte da mente coberta pelo mato, no qual se enroscam as serpentes da superstição, e da qual surgem as bestas selvagens que são as religiões.

Nem por interesse da verdade, nem pelo beneficio do homem, é necessário dizer que não sabemos. Nenhuma causa é grande o suficiente para sacrificar a franqueza. Os mistérios da vida a da morte, do bem e do mal, nunca foram desvendados.

Eu combato aqueles que, nada sabendo do futuro, profetizam uma eternidade de dor – aqueles que semeiam as sementes do medo no coração dos homens – aqueles que envenenam as fontes da vida, e colocam um esqueleto em toda festa.

Vamos exterminar as bruxas enrugadas da superstição; vamos dar boas vindas às belas filhas da verdade e da felicidade.

Robert G. Ingersoll