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2ª Carta do Reverendo Field
2ª Carta do Reverendo Field

Uma última palavra para Robert G. Ingersoll -1887

 

Meu caro Coronel Ingersoll:

Li sua resposta à minha carta aberta uma meia dúzia de vezes, e cada vez que leio aumenta minha admiração pela sua habilidade de advogado. É escrita com grande ingenuidade, e fornece provavelmente um argumento tão completo quanto o argumento da fé (ou falta de fé) que há no senhor. Certamente o senhor considera irrespondível, e assim parece para as pessoas que são predispostas a pensar desta maneira. Para citar uma frase informal do Sr. Lincoln, na qual existe mais sabedoria do que ironia, "para aqueles que gostam desse tipo de coisa, não espanta que isso é o tipo de coisas que eles apreciam". O senhor pode responder que nós, que nos agarramos à fé de nossos pais estamos tendo atitude prejulgada, e isto seria a razão de não nos impressionarmos com seus apelos. Eu não nego uma forte inclinação neste sentido, e na verdade nosso interesse real é o mesmo – chegar à verdade; portanto, tenho tentado dar peso a qualquer argumento que haja no meio de tanta eloqüência; mas devo confessar que, apesar de tudo, permaneço na mesma situação mental de antes. Com toda a boa vontade que eu possa trazer para a questão, eu não encontro, revisando minha carta aberta, nenhuma sentença para ser mudada, ou retirada; e estou disposto a deixá-la como minha Declaração de Fé – para ficar lado a lado com sua resposta, para que homens honestos julguem entre nós. Eu só preciso de mais umas palavras para deixar de lado o assunto.

O senhor parece um pouco perturbado porque alguns dos meus colegas o vêem como um monstro por causa da sua descrença. Certamente eu não aprovo esta linguagem, apesar deles dizerem que esta é a única palavra que acham adequada à sua ferocidade nos ataques contra aquilo que consideram de mais sagrado. O senhor se tornou um gladiador, e quando desce à arena, o senhor desfere golpes violentos, que provocam outros golpes, em retorno. Na sua resposta o senhor revela uma particular animosidade contra os presbiterianos. Seria porque o senhor foi criado nesta crença, e no qual seu pai, que o senhor cita com filial respeito e afeição, foi um honrado pastor? O senhor até se refere a "um Deus presbiteriano!", como se nós tivéssemos nos apropriado do Ser Supremo, ou como se nos considerássemos objeto especial do Seu favor. Existe algum motivo para esta visão estreita? Pelo contrário, quando dobramos nossos joelhos para o nosso Criador, trata-se do Deus e Pai de todos os seres humanos, e a expressão que o senhor se permite usar, só pode ser considerada como uma grosseira ofensa. Era preciso esta grosseria contra a denominação religiosa na qual o senhor nasceu?

Isto pode explicar e o senhor não parece totalmente capaz de entender, as razões pelas quais o senhor certas vezes é tratado com certos adjetivos pela imprensa e pelo público. O senhor se sente perseguido por suas opiniões. Mas existem outros que têm as mesmas opiniões, mas sem ofensas. Não é porque o senhor expressa suas opiniões. Ninguém negaria a mesma liberdade que é citada por Huxley ou Herbert Spencer. Não é porque o senhor exercita sua liberdade de julgamento ou de expressão, mas pela maneira como o senhor ataca os outros, tomando sua fé de todas as maneiras ridículas, e falando daqueles que professam a fé como se fossem desonestos ou tolos. Não é da natureza humana não se ressentir de tais acusações, as quais, por mais que lhe pareçam incríveis, são preciosas para eles. Daí eles o vêem como um rude antagonista; e quando o senhor os choca com suas expressões, como citei, o senhor merece linguagem dura em resposta. Eu não os acompanho nisso porque eu o conheço, e aprecio aquele seu outro lado do senhor que é humano, delicado e cavalheiro. Portanto, quando reconheço estas melhores qualidades, devo acrescentar com toda franqueza que sou compelido a olhar para o senhor como um homem tão amargurado contra a religião que o senhor não pode pensar nela sem ser associando-a a fanatismo, hipocrisia; com este estado de espírito é difícil para o senhor julgar honestamente os argumentos para sua verdade.

Eu concordo com o senhor que a razão nos deu para se exercer, e quando o homem procura a verdade, sua mente deveria ser, como o que Darwin era, "tão livre do preconceito como a bússola de um marinheiro". Mas se ele é perturbado pela paixão de tal maneira que ele não consegue ver as coisas verdadeiramente, então ele é responsável. É o elemento moral somente o que faz a responsabilidade. Nem eu acredito que algum homem será julgado neste mundo ou em outro por aquilo que não envolve um julgamento moral errado.

De acordo com sua declaração comovente "O Deus que o senhor adora, de acordo com sua crença, tortura (!) por toda a eternidade o homem que tem uma dúvida honesta", não produz o efeito desejado, simplesmente porque eu não afirmei, nem acredito em tal ser. Eu acredito é que no mundo futuro, todo homem será julgado pelas ações feitas por seu corpo, e que o julgamento, como quer que seja, será transparentemente justo. Deus é mais misericordioso do que o homem. Ele não deseja a morte dos maus. Jesus perdoou, quando os homens condenariam, e qualquer que seja o destino da alma humana, nunca será correto afirmar que o Juiz Supremo seja carente de justiça ou de misericórdia. Isto eu enfatizo porque o senhor se ocupa tanto da questão da retribuição, dando a esta questão uma atenção tão constante, que é quase exclusiva. Em qualquer assunto que o senhor aborde, sempre volta a esta questão, como uma nuvem negra que escurece o horizonte, lançando sua sombra sobre a vida que existe e está por vir. Suas críticas a esta crença "desumana" são tão intensas que fica a impressão de que religião se resume a isto; é toda ela é ódio e horror. Mas o senhor está considerando uma parte como o todo. Religião é um vasto sistema, do qual este é apenas um aspecto: esta é apenas uma doutrina dentre tantas; em entre muitos que não negariam ser verdadeiros cristãos, nós concordam inteiramente com ela, ou apenas na forma modificada, enquanto que com todo o coração eles aceitam e professam a religião que Cristo trouxe para o mundo.

O arcebispo Farrar da abadia de Westminster, o mais eloqüente pregador da Igreja da Inglaterra, escreveu um livro intitulado "Esperança Eterna", no qual ele argumenta, através da razão e da bíblia, que esta vida não é o tudo, ou o fim de tudo na provação humana. Mas que numa vida futura haverá outra oportunidade, quando muitos milhões, tornados mais sábios pela experiência infeliz, retornarão mais uma vez para os caminhos da vida; de tal modo que, no fim, todos os seres humanos, com exceção, talvez, de uns poucos que se mantiverem irredutíveis, despertarão e serão feitos felizes para sempre. Outros olharão para ‘morte eterna’ como se fosse meramente a extinção do ser, enquanto que a imortalidade é a recompensa de uma preeminente virtude, interpretando, neste sentido, as palavras, "O pagamento do pecado é a morte, mas o presente de Deus é a eterna vida, através de Jesus Cristo, nosso Senhor." A última visão é recomendada ao senhor, como uma aplicação da "sobrevivência dos mais aptos", a um outro mundo, sendo permitido aos inúteis, aos maus incuráveis da espécie humana a morte eterna, (um fim que não deverá provocar terrores no senhor, já que o senhor vê isso como o fim natural de todas as pessoas), enquanto que aos bons será permitido viver eternamente. A aceitação de qualquer destas teorias poderá aliviar sua mente desses "horrores da grande escuridão", que parece vir à tona quando o senhor fala de retribuição no além túmulo.

Mas aceitando toda a liberdade aos outros, não posso me livrar desta severa e teimosa verdade. Para mim, o mal moral do universo é uma tremenda realidade, e não vejo como limitá-lo sem um longo tempo. Para mim a retribuição é uma parte necessária da lei Divina. Uma lei sem uma penalidade não é lei. Mas eu possuo o argumento para isso não na bíblia, mas no principio o qual o senhor reconhece. O senhor diz: "Não há punições, não há recompensas: há conseqüências." Muito bem, consideremos as "conseqüências", e vejamos até onde elas nos levam. Quando um homem, através do vício, reduz seu corpo a um destroço, e sua mente à idiotia, o senhor diz que isso são conseqüências da sua vida viciada. Seria arranhar a língua dizer que esta é sua punição e não menos que punição auto-infligida?

Para o pobre sofredor que vive no hospício, não importa muito como o chamemos, desde que esteja experimentando as agonias do inferno. E aqui sua teoria é das ‘conseqüências’ se seguida à risca, levará o senhor para muito mais longe. Porque se o homem vive depois da morte, e mantém sua identidade pessoal, não poderíamos deduzir que as conseqüências desta vida o acompanhariam na outra? E se sua existência é imoral, não seriam suas conseqüências imorais também? Não seria isto retribuição infinita?

Mas o senhor afirma que o efeito moral da retribuição é destruído pela maneira fácil de escapar da pena. Ele só teria de se arrepender, e estaria restaurado à mesma condição anterior, como se ele nunca houvesse pecado. Não estendo desta maneira. "Eu acredito na remissão dos pecados," mas, o perdão não reverte o curso da natureza; não subverte o curso da lei natural; um bêbado pode se arrepender, quando chega ao fim da vida, mas isto não desfaz o mal que ele fizera na vida, nem impede suas conseqüências. Apesar de suas lágrimas, ele morre na agonia da vergonha e do remorso. O inexorável tem de ser completado.

E assim é no mundo futuro. Mesmo que um homem seja perdoado, ele não consegue escapar do mal de sua vida passada. Uma retribuição o persegue até as portas do céu. Porque se ele não sofrer, ainda assim sua vida má tanto pode despertar sua natureza mortal, como diminuir seu poder de aproveitá-la. Há graus diferentes de felicidade, do mesmo modo que as estrelas diferem entre si em glória; e aquele que começa errado, descobrirá que não pecar e se arrepender não é a mesma coisa que simplesmente não pecar. Ele entra no outro mundo num estado de infância espiritual, e terá de começar de baixo, e subir lentamente para cima.

Nós podemos dar um passo adiante, e dizer que o céu pode não ter apenas luz, mas também sombras, refletidas no que vem de lá. Nós lemos o "Livro das Lembranças de Deus", mas não há um outros livro de lembranças da mente, -- um livro o qual a maioria das pessoas temem abrir e olhar lá dentro? Quando esse livro é aberto, e quando lemos suas páginas horríveis, não devemos pensar no que deveríamos ter feito? E todos aqueles pensamentos podem ser totalmente livres de tristeza? O bêbedo bruto que despedaça o coração de quem o amava chorará amargamente, mesmo que sua esposa o perdoe no leito de morte; mas ele não conseguirá perdoar a si mesmo, e ele nunca poderá recordar aqueles sofrimentos sem baixar a cabeça, com o coração partido. Isto preserva o elemento da retribuição, apesar de não fechar a porta do perdão e misericórdia.

Mas não precisamos viajar novamente através das doutrinas cristãs. Minha fé é muito simples; ela se resume me duas palavras: DEUS e CRISTO. Estes são os dois centros ou, como um astrônomo poderia dizer, as estrelas gêmeas, os sóis duplos, em cuja órbita está a verdade religiosa.

A respeito do primeiro o senhor afirma que "não pode haver qualquer evidência na minha mente da existência de tal ser, e minha mente é de tal modo que constituída que é incapaz de sequer imaginar uma personalidade infinita"; e o senhor, gravemente, põe para mim esta questão: "O senhor realmente acredita que este mundo é governado por um Deus infinitamente sábio e bom? O senhor está convencido disso?" Aqui há duas questões – uma quanto à existência de Deus, e outro sobre a Sua benevolência. Eu responderei ambas numa linguagem o mais clara que puder usar.

Primeiro, eu acredito em Deus? Eu respondo que seria impossível, para mim, não acreditar. Eu não conseguiria não acreditar, se tentasse. O senhor insiste que crença ou descrença não é uma questão de vontade, mas de evidência. O senhor diz: "o cérebro pensa como o coração bate, como os olhos vêem." Então vamos deixar de lado suas conjecturas e abrir os olhos para o que podemos ver.

Quando Robinson Crusoe, na sua ilha, veio para a beira da praia num dia, e viu na areia as pegadas de um homem, poderia ele evitar chegar à conclusão de que um homem estivera na praia? O senhor poderia tentar convencê-lo de que aquilo apareceu por acaso, -- que a areia foi lavada pelas águas, que junto com o vento esculpiu a forma de um pé, ou que um animal marinho desenhou ou esculpiu a figura, -- o senhor não conseguiria convencê-lo. As pegadas estavam lá, e a conclusão era inevitável: ele não acreditava – ele acreditava que algum ser humano, amigo ou inimigo, civilizado ou selvagem, havia posto os pés na praia desolada. Então, quando eu descubro no mundo, (como eu acho que descubro), pegadas misteriosas que certamente não são humanas, não é uma questão de dever acreditar ou não: não posso deixar de acreditar que alguma Força mais poderosa do que o homem colocou os pés na terra.

É comum entre os filósofos ateus fazer pouco caso do argumento da criação; mas minha mente é tal que "é incapaz" de resistir à conclusão para qual ela me leva. E (já questões pessoais estão vigorando), eu lhe pergunto se seria possível para o senhor encontrar um relógio e acreditar que não há nenhum criador na sua criação; que ele não foi feito para marcar o tempo, mas apenas casualmente apareceu; que ele foi o produto de algum capricho da natureza, que reuniu suas partes e o formou. O senhor não sabe que com toda a positivismo que pode pertencer ao convencimento de sua mente, que isto não foi obra de acidente, mas de criação; e se aquilo foi uma criação, havia um criador? E se o relógio foi feito para marcar o tempo, não foi o olho feito para ver, e o ouvido para ouvir? Os céticos podem lutar contra este argumento o quanto quiser, e tentar evitar a inevitável conclusão, e mesmo assim, ela permanecerá para sempre gravada dentro do homem, assim como assim como embebida nas sólidas fundações da terra. Portanto, eu repito, não é uma questão para mim de acreditar ou não – não posso evitar acreditar; e eu não fico apenas surpreso, mas perplexo que não só o senhor, mas qualquer outro homem possa chegar a uma conclusão diferente. Espantado e surpreso eu lhe pergunto: "Em todo este amplo universo não há nenhuma Inteligência superior àquelas das pobres criaturas humanas que rastejam nesta pequena bola terrestre? Para mim é com a mais profunda convicção e o maior respeito que eu repito a primeira sentença da minha fé: "Eu acredito em Deus o Pai Todo poderoso".

E não apenas no Todo Poderoso apenas, mas sábio e bom. Mais uma vez eu pergunto, como eu posso deixar de acreditar nas coisas que vejo no dia a dia? A cada manhã, quando o sol nasce no leste, mandando luz e vida para a terra, eu vejo uma gloriosa imagem do Criador beneficente. A maravilhosa beleza do amanhecer, a úmida frescura do ar, as nuvens flutuando no céu – tudo fala nEle. E quando o sol se põe, mandando luz sobre as densas massas que impedem seu caminho, e mandando a glória sobre o céu e a terra, esta maravilhosa iluminação é para mim simplesmente o reflexo dEle, que se espraia no céu tal qual uma cortina; aquele que fez das nuvens sua carruagem, aquele que voa com as asas do vento.

Como nós reconhecemos a evidência de bondade no próprio homem: na força do pensamento, de adquirir conhecimento, de penetrar nos mistérios da natureza e subir às estrelas. Pode um ser, dotado de tais presentes transcendentes, duvidar da bondade do seu Criador?

Sim, eu acredito com todo o meu coração naquele que é, não apenas infinitamente Grande, mas infinitamente bom; que ama todas as criaturas que Ele fez; curvando-se sobre elas como a curva sobre as nuvens e envia arcos no céu, espraiando-se de horizonte a horizonte; olhando para baixo com uma bondade que comparada com a humana, esta parece fria e pálida. "Como o pai tem piedade do filho, também Nosso Senhor tem piedade daqueles que O temem; porque Ele nos conhece Ele sabe que somos pó".

Sobre a questão da imortalidade, o senhor está também "voando". O senhor não sabe de nada nem acredita em nada; ou melhor, o senhor só sabe que nada sabe, e acredita que em nada acredita. O senhor, entretanto, confessa uma fé na esperança, e admite uma possibilidade que possa haver uma outra vida, apesar de que a incerteza sobre isto é ao mesmo tempo desesperada e intensa. Mas sua mente é tão poética que o senhor dá um certo atrativo até para a perspectiva da aniquilação. O senhor coloca no sepulcro flores como estas:

"Eu já disse milhares de vezes, e digo novamente, que a idéia da imortalidade, que como o mar tem inundado e preenchido o coração humano, com suas infindáveis ondas de esperança e medo batendo contra seu cais, e pedras de tempo e do destino, não foi nascida de algum livro, ou crença e religião. Nasceu da afeição humana, e continuará a inundá-lo e encher, dentro das nuvens de dúvida e escuridão até que o amor beije os lábios da morte".

"Eu já disse milhares de vezes, e digo novamente, que nós não sabemos, não podemos dizer, se a morte é uma parede ou uma porta; o começo ou o fim de um dia; a debandada de pássaros, ou o recolher para sempre as asas; o nascer ou o por do sol; ou uma vida eterna que dá alegria e amor a cada criatura".

Belas palavras! Mas extremamente tristes! É como prata revestindo as nuvens, mas as nuvens estão lá, escuras e impenetráveis. E, no entanto, não devemos esperar nada mais claro e brilhante de alguém que não reconhece nenhuma luz além daquela proveniente da natureza. Esta luz é muito pálida. Se fosse tudo o que temos, nós deveríamos ser justos como Cícero, e dizer com ele, e com o senhor, que o futuro da vida é "ter esperança, em vez de acreditar". Mas esta incerteza não mostra a necessidade de algo acima da natureza, que "foi crucificado, morto e sepultado, e no terceiro dia subiu novamente do mundo dos mortos?" Foi o Conquistador da Morte quem apelou aos puros de coração: "Eu sou a ressurreição da Vida". Já que Ele se foi antes de nós, iluminando as passagens escuras do túmulo, nós não precisamos temer o que virá, baseando-nos na palavra de nosso Líder: "Porque eu vivi, vós vivereis também".

Esta fé noutra vida é uma herança preciosa, que não pode rasgar no fundo, sem um golpe que partiria qualquer coração; e foi sobre isto que a mencionei como o último refúgio da alma pobre, da agonizante, da sofredora, da desesperada, quando perguntei: "Não lhe ocorre que há algo de muito cruel no seu tratamento à crença de seus semelhantes, em cuja esperança em outro mundo, está tudo o que lhes resta na escuridão de sua vida presente?" A acusação de crueldade que o senhor repele com certa gentileza, dizendo, (com uma discreta alteração das minhas palavras) "quando eu nego a existência da perdição, o senhor afirma que há algo de muito cruel neste tratamento da crença de meus semelhantes". Claro que a mudança nestas palavras, colocando ‘perdição’ em lugar de vida eterna ou esperança, foi uma mera desatenção. Mas foi o suficiente para mudar o sentido daquilo que escrevi. Quando mencionei ‘o tratamento dado à crença dos meus semelhantes’ eu o considerei cruel, e ainda considero.

Quando cito este mero deslize, pretendo remover da sua mente uma falsa apreensão, que seria absurda se não fosse cômica. Na minha carta, referindo-me à sua crença na imortalidade, eu havia dito: "Com um ar de modéstia e humildade, que pode levar uma audiência ao delírio, o senhor confessa sua ignorância sobre o que, para outros pode haver algum conhecimento, quando o senhor diz ‘este mundo é o único que conheço, ao que me lembre’". Claro que, a respeito do que os outros tenham conhecimento, "era uma parte daquilo que o senhor disse, ou pelo menos, implicado nas suas maneiras (porque o senhor não enfatiza suas idéias apenas por palavras, mas também por entonação de voz, por cílios levantados, ou lábios franzidos) e, no entanto, em vez de tomar a sentença na sua forma clara e direta, o senhor tenta entendê-la como se eu dissesse que possuo uma maneira misteriosa e privada de ter conhecimento de outro mundo (!), e me pergunta seriamente: "O senhor está querendo me dizer que possui algum conhecimento sobre um outro estado da existência; que o senhor já habitou outros planetas antes de ter nascido; que o senhor já viveu antes de ter nascido; ou que o senhor lembra de algo de outro mundo ou de outro estado?"Não, meu caro coronel! Tenho sido um bom viajante e tenho visitado muitas partes deste mundo, mas nunca visitei um outro. Lendo sua questão, se não soubesse que o senhor tem uma das mais brilhantes ironias dos nossos dias, eu seria tentado a dizer o que Sidney Smith disse sobre um escocês: "o senhor não pode colocar uma piada na sua cabeça, exceto através de uma operação cirúrgica".

Mas retornando ao que é sério: o senhor cita nossa fé e nossas esperanças, porque o senhor não conhece a imenso consolo que isto traz para o transtornado coração humano. O senhor ri da idéia de que a religião seja um "consolo". De fato, não seria uma consolação ter um amigo Todo Poderoso? Não seria uma questão delicada para uma pobre mãe escrava que senta sozinha na sua cabana, depois de ter seu bebê roubado, cantar solitária a seguinte sentença:

"Ninguém conhece a tristeza que tenho visto:

Ninguém sabe, além de Jesus"?

O senhor lhe tiraria seu amigo Todo Poderoso – o único que ela possui na terra e no céu?

Mas lhe farei a justiça de dizer que sua falta de religião e fé vem, em parte de sua sensibilidade e bondade no coração. O senhor não pode reconhecer uma força no comando, porque sua mente é incomodada com os sofrimentos que testemunha. Por que, o senhor pergunta, o homem sofre tanto? O senhor traça quadros dramáticos da miséria que existe no mundo, como provas da incapacidade do Governante ou Regente, e não hesita em dizer que "qualquer homem de inteligência mediana faria muito melhor". Se o senhor conseguisse, faria todo mundo feliz; não haveria mais pobreza, nem doenças, ou dor.

Esta é uma bela paisagem para se ver e, no entanto, o senhor vai me desculpar em dizer que esta é uma visão mais de uma criança do que de um homem adulto. O mundo não é um parque de diversões no qual o homem deve ser mimado e agradado como criança: ele se tornaria estragado como crianças malcriadas. É numa arena de conflitos, onde nos desenvolvemos, que existe a humanidade em nós. Nós todos temos de lutar pela vida, e estar atos para ela – fisicamente, intelectualmente e moralmente. Se há verdadeira humanidade dentro de nós, nós saímos da luta mais fortes e melhores; com mentes mais ágeis e corações mais brandos; com conhecimentos mais amplos e mais caridosos.

Provavelmente não diferiríamos neste ponto se pudéssemos concordar sobre o verdadeiro fim da vida. Mas aqui percebo que a diferença é irreconciliável. O senhor acredita que o fim é a felicidade: Eu acho que é o caráter. Eu não acho que o fim derradeiro da vida na terra é a diversão; que seja o objetivo obter dela a maior quantidade de alegrias; mas para ser verdadeiramente e grandemente bom; e que para este fim, nenhuma disciplina pode ser tão severa desde que nos leve a sofrer e ser fortes. Esta disciplina corresponde a este fim quando ela eleva o espírito para os mais elevados graus de coragem e resistência. O esplendor da virtude nunca parece tão brilhante como quando colocado contra um fundo negro. É nas prisões e calabouços que os mártires e heróis mostram os mais elevados graus de heroísmo moral, a força da mente indevassável do homem.

Mas eu acho que estes exemplos todos não mudam a questão principal. Há uma outra ilustração a ser acrescentada a esses heróis e mártires – a do sofrimento silencioso, que fazem da vida uma longa agonia, que freqüentemente acometem os bons, de tal modo que faz parecer que os melhores sofrem mais. E, no entanto, quando o senhor senta junto a um leito de doente, e olha uma face mais branca do que o travesseiro sobre a qual descansa, o senhor não percebe o quanto aquele sofrimento acentua a natureza daquele que o suporta tão calmamente? Esta é a teoria cristã: este sofrimento, surgido pacientemente, é uma maneira de elevar o caráter, e no fim, para a maior felicidade. Vendo desta maneira, podemos entender, como se pode explicar que o "o sofrimento de hoje não vale nada, se comparado com a glória que será revelada". Quando a manhã celestial abrir, mais clara do que qualquer manhã que surja no mundo, haverá uma compensação para todas as coisas: o pobre se tornará rico, e o mais sofredor será o mais feliz; como na visão do apocalipse, quando é perguntado "quem são estes vestidos em mantos brancos, e de onde vieram eles?", a resposta será: "estes são os que vieram das piores tribulações."

Nesta conclusão, que não é adotada levianamente, mas após inumeráveis lutas com dúvidas, depois da reflexão e experiência de anos, sinto uma grande paz. É o brilho do por do sol que anuncia a noite. Porque (devemos confessar) é em direção a esta noite que o senhor e eu estamos caminhando. O sol já passou pelo meridiano, e se apressa em descer. O que quer que esta vida tenha trazido para nós (e eu sou um dos que mais a vêem como um vale de lágrimas), ela logo estará para trás. Eu vejo as sombras rastejando, mas eu dou as boas vindas para o anoitecer que em breve escurecerá a noite, porque eu sei que será uma noite com estrelas gloriosas. Quando olho para a frente, o sentimento de devoção se mistura com um estranho e poderoso senso de Bondade Infinita que me circunda, como uma atmosfera:

"E então, junto ao mar silencioso,

Eu espero o remo reconfortante;

Nenhum mal Dele pode vir a mim

No mar ou na praia.

Não sei onde está Sua ilha:

Suas frondosas palmeiras ao vento;

Só sei que não posso me distanciar

Além do Seu amor e carinho".

Ah se o senhor compartilhasse comigo esta confiança esta esperança! Mas parece que o senhor está realmente distante de qualquer fé. Num de seus parágrafos, o senhor se refere ao que seria para o senhor "a conclusão da questão". Depois de repudiar a religião com escárnio, o senhor pergunta: "Não há espaço para uma filosofia melhor e mais elevada?" E depois indica a resposta correta, a qual nenhuma palavra pode fazer justiça, com exceção da sua:

"No final, não será possível que possamos achar que tudo tenha necessariamente de ser produzido; que todas as religiões e superstições, todos erros e todos os crimes foram coisas necessárias? Não será possível que depois dessas percepções poderá surgir não apenas amor, mas piedade pelos outros, mas absoluta justificação pelo indivíduo? Não podemos achar que cada alma, como Mazzepa, é açoitada pelo cavalo selvagem da paixão, ou como Prometeus, para a rocha do destino"?

Se isto é o fim de toda filosofia, isto é também o fim de todas as coisas. Não só isto faz o fim de nós, e de nossas esperanças no futuro, mas de tudo o que faz a presente vida valer ser vivida – de toda a liberdade, e conseqüentemente, de toda a virtude. Não há mais distinção moral no mundo – nenhum bem e nenhum mal, nenhum certo ou errado; nada além da dura necessidade. Com este credo, nem compreendo como o senhor pode fazer parte de um tribunal, e argumentar pela condenação de um criminoso. Como poderemos ser condenados e punidos se isto de nada adiantaria? Na verdade ele não é um criminoso, já que não existe esta coisa de crime. Ele não deve ser acusado. Ele não é levado pelo cavalo selvagem da paixão, carregado por uma força superior ao seu controle? Que crueldade trancafiá-lo atrás de grades de ferro! Pobre homem! Ele merece nossa piedade. Vamos depressa libertá-lo de uma situação tão dolorosa, e apresentemos nossas humildes desculpas por tentar puni-lo por atos os quais ele obedece por impulso impossível de resistir. Esta será a ‘absoluta justificação pelo indivíduo’. Mas o que será da sociedade depois disto, o senhor nada diz.

O senhor tem consciência de que nesta última situação de ‘uma melhor, uma alta filosofia’, (o que é o absoluto fatalismo), o senhor se colocou ao lado de John Calvino, e foi muito além dele? Que o senhor, que esgotou todas as palavras da língua inglesa para denunciar a sua crença, como a mais horrível das crenças humanas – estúpida, cruel, desumana; que a considerou com escárnio e desprezo; agora abraça o mais negro calvinismo que já foi ensinado ao homem? O senhor não encontra palavras suficientes para exprimir seu horror na doutrina dos decretos Divinos; e agora o senhor tem decretos com uma vingança – predestinação e condenação, ambas em uma. Sob esta crença, o homem é mil vezes pior do que sob a nossa: porque ele não tem absolutamente nenhuma esperança. O senhor pode dizer que ele nunca sofrerá para sempre. O senhor nem sabe isto; mas de qualquer modo, ele sofre enquanto existe. Não há nenhum Deus lá em cima para ter piedade dele, para libertá-lo; mas à medida que a idade avança, ele é carregado pelas pedras do destino, com o insaciável abutre devorando seu coração!

Lendo suas frases fortes, pareço estar perdendo apoio a tudo, e estar afundando, afundando, até atingir o mais baixo nível de um abismo; enquanto que na escuridão acima de mim, um som como a voz da morte abraça a meia noite da alma. Se eu acreditasse nisso eu choraria, Deus nos livre! Ah, não – se não existisse nenhum Deus, até mesmo este último consolo seria tirado de nós: para que ofereceríamos uma oração que não pudesse ser ouvida ou respondida? E também poderíamos pedir misericórdia pelas "pedras do destino", aos quais estaríamos ligados para sempre!

Recolhendo-me deste Evangelho de desespero, eu me volto para Aquele, em cuja face existe ao mesmo tempo algo de humano e divino – uma indescritível majestade, unida com mais do que bondade humana e misericórdia; Aquele que nasceu entre os pobres, onde Ele não tinha lugar para apoiar Sua cabeça e, no entanto, fez o bem; pobre e, no entanto fazendo de muitos, ricos; Aquele que encontrou o homem na mais profunda solidão e, no entanto, cuja presença acendeu cada habitante para quem Ele veio; Aquele que pegou criancinhas nos braços, e as abençoou; Aquele que deu felicidade aos outros, mas sofreu; que experimentou cada sofrimento humano e ,no entanto estava pronto para aliviar o sofrimento dos outros; chorando com os que choravam; vindo a Betânia para confortar Marta e Maria, que perderam seu irmão; criticando o orgulhoso, mas gentil e piedoso em relação às mais abjetas das criaturas; parando na multidão para ouvir o choro do mendigo cego, no caminho; querendo ser conhecido como o "amigo dos pecadores", se fosse possível resgatá-lo para o caminho da paz; Aquele que não desprezou nem a mulher degenerada que lhe caiu nos Seus pés, mas em vez disso usou as seguintes palavras amorosas: "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais", ajudou-a a se levantar e a ajudou a percorrer seu caminho de mulher virtuosa; e Aquele que, ao morrer na cruz, gritou: "Pai, perdoai-os, porque eles não sabem o que fazem!" Neste Amigo da amizade, Confortador dos desesperançados, Perdoador dos penitentes, e Guia dos perdidos, eu vejo uma grandeza que eu não encontro em nenhum dos filósofos e professores do mundo. Nenhuma voz em todo o mundo me dá arrepios como aquela que sussurra perto do meu coração: "Vem para mim, e eu te darei repouso", para quem eu respondo: ESTE É MEU MESTRE E EU O SEGUIREI.

Henry M. Fied