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1ª Resposta de Ingersoll
1ª Resposta de Ingersoll

Resposta ao Reverendo Henry Field - 1887

 

"A dúvida é considerada como o farol do sábio".

 

Meu caro Sr. Field:



Respondo sua carta porque ela foi humana, delicada e generosa. Não é freqüente que um pastor do evangelho da benevolência universal fale de um descrente sem ser em termos de reprovação, desprezo e ódio. O manso é geralmente malicioso. A afirmação, na sua carta, de que alguns dos seus colegas me vêem como um monstro, devido à minha descrença, tendem a mostrar que aqueles que mais amam um Deus não são sempre amigos dos seus semelhantes.

Não é estranho que pessoas que admitem que estão destinadas à condenação eterna, que elas são por natureza totalmente depravadas, que não há nenhum sinal de saúde nelas, possam ser tão egoisticamente arrogantes em olhar outras como monstros? E, no entanto, alguns de seus colegas, que classificam descrentes como infames, confiam na salvação inteiramente na bondade aos outros, e esperam receber como esmola uma eternidade de alegrias.

A primeira questão que surge entre nós é como a inocência de erros honestos – é o direito de exprimir uma idéia honesta.

O senhor deve reconhecer que homens perfeitamente honestos podem diferir em questões importantes. Alguns acreditam em livre mercado, outros advogam o controle estatal. Há democratas honestos e republicanos sinceros. Como o senhor considera essas diferenças? Homens instruídos, diretores de faculdades, não podem concordar sempre com questões capazes de solução – questões que a mente pode captar, nas quais a evidência está aberta a tudo, e onde os fatos podem existir com absoluta segurança. Como explicar isso? Se essas diferenças podem existir consistentemente com a boa fé daqueles que diferem, o senhor não pode conceber que pessoas honestas possam ter diferentes pontos de vista em questões sobre as quais nada pode ser sabido com certeza?

O senhor não me considera um monstro. Alguns de seus colegas me consideram como tal. Como considerar esta diferença? Claro que seus colegas – depois que os corações foram amolecidos pelo Deus Presbiteriano – são regidos pela caridade e amor. Eles não me consideram um monstro porque eu cometi um crime infame, mas simplesmente porque eu expressei minhas idéias honestamente.

O que eu fiz? Li a bíblia com todo o cuidado, e a conclusão que chegou à minha mente foi de que ela não é inspirada e que não é verdadeira. Por que seria minha obrigação falar o contrário do que minha mente pensa? Seria minha obrigação ficar calado? Se eu fosse desonesto comigo mesmo, se eu fizesse parte da maioria, -- se eu declarasse que o livro é a palavra inspirada de Deus – estariam seus colegas ainda me considerando como um monstro? Pode a religião controlar o mundo de tal modo a ponto de um homem honesto parecer monstruoso?

De acordo com sua crença – de acordo com sua bíblia – o mesmo Ser que fez a mente humana, que idealizou cada cérebro, e que semeou nos mais maravilhosos campos as sementes de cada idéia e ação, inspirou cada palavra daquele livro, e o fez como um guia para todo o mundo. Certamente este livro deveria satisfazer a mente. E, no entanto, há milhões que não acreditam na inspiração das escrituras. Alguns dos maiores e melhores têm considerado com desprezo a alegação de inspiração. Nenhum presbiteriano foi mais alto do que Humboldt. Ele era familiar com a natureza, desde a areia às estrelas, e dedicou seus pensamentos, descobertas e conclusões, as "mais preciosas do que ouro" a toda humanidade. E ele não só rejeitava a religião de seus colegas, mas também negava a existência do seu Deus. Certamente Charles Darwin era um dos maiores e puros dos homens, tão livre de preconceitos como a bússola de um marinheiro. Tentando apenas achar, no meio das névoas da ignorância a estrela da verdade. Nenhum homem exerceu maior influência intelectual no mundo. Suas descobertas, levadas à conclusão legítima, destroem as crenças e escrituras sagradas da humanidade. Diante da ‘seleção natural’, da ‘sobrevivência dos mais aptos’, e na "Origem das Espécies", mesmo a religião cristã se transforma numa grosseira e cruel superstição. E Darwin era um homem bravo, honesto, sábio e generoso.

Compare, por favor, esses homens, Humboldt e Darwin com os fundadores da religião presbiteriana. Leia a vida de Espinoza, o adorável panteísta, e depois leia a vida de João Calvino, e me diga, sinceramente, na sua opinião, qual era o ‘monstro’! Nem seus colegas alegam que os homens foram feitos para ser eternamente castigados por terem estado enganados sobre as verdades da geologia, astronomia ou matemática. Um homem pode negar que a terra é redonda, ou que rode, rir da lei da gravidade, debochar da hipótese das nebulosas, e ver com horror uma tabuada de multiplicação e, no entanto tomar parte de um coro angelical. Eu insisto sobre a mesma liberdade de pensamento em todos os departamentos do conhecimento humano. A razão é o teste final e supremo.

Se Deus já fez uma revelação ao homem, ela teve ter sido endereçada à sua razão. Não há outra faculdade que possa decifrar a mensagem. Eu admito que a razão é algo pequeno e frágil, uma pequena e trêmula chama carregada na noite escura, -- ameaçada e soprada por tempestades de paixão, -- e, no entanto esta é a única luz que temos. Se a extinguirmos, nada restará.

O senhor faz uma distinção entre o que classifica como "superstição" e religião. O senhor fica chocado com a cena da mãe hindu que oferece a vida do próprio filho para obedecer ao suposto comando do seu Deus. O que o senhor acha de Abraão, ou Jeftá? Qual é sua opinião sobre o próprio Jeová? Não acha que o sacrifício de uma criança é tão horrível na Palestina como na Índia? Por que Deus exigiria um sacrifício a um homem? Por que um ser infinito exigiria algo de um ser finito? Será que o sol exigiria algo de um vaga-lume, e será que a tênue luminescência deste ser despertaria a inveja da fonte de luz?

O senhor precisa lembrar que a mãe hindu está convencida de que seu pequeno filho estará para sempre abençoado – e que ele receberá cuidados especiais do Deus para quem ele está sendo doado. Este sacrifício se dá como resultado de uma falsa crença da mãe. Ela despedaça o próprio coração pelo amor do filho. Mas o que o senhor acha da mãe cristã que espera ser feliz no céu, enquanto seu filho será condenado eternamente numa prisão – uma prisão na qual ninguém morre, e da qual ninguém escapa? O que o senhor acha daqueles cristãos acreditam que eles, no céu, estarão preenchidos de êxtase, que todos os seres amados na terra serão esquecidos – que todas as relações sagradas da vida, e todas as paixões do coração se apagarão e morrerão, de tal modo que eles olharão com indiferença, distância e alegria para as misérias dos condenados?

O senhor apontou uma regra na qual a superstição pode ser distinguida da religião. A regra é esta: "Fazer de um crime o que não é um crime, e fazer de uma virtude o que não é uma virtude." Vamos testar sua religião usando esta regra.

É um crime pensar, raciocinar, e observar? É um crime ser governado por aquilo que para você é evidência, e é uma infâmia expressar suas idéias honestas? Há uma outra questão: credulidade é uma virtude? Será a boca aberta do milagre ignorante a única entrada para o paraíso?

De acordo com sua crença, aqueles que acreditam serão salvos, e aqueles que não crêem serão condenados eternamente? Quando se condena um homem ao sofrimento eterno por descrer – ou seja, de acordo com o que para ele é evidência – o senhor não está fazendo um crime do que não é um crime? E quando o senhor recompensa um homem a uma eternidade de alegrias por simplesmente acreditar em coisas que estão em acordo com suas mentes, não se está fazendo uma virtude do que não é virtude? Em outras palavras, o senhor não está colocando sua religião dentro da regra do que é superstição?

A verdade que ninguém é responsável por seus pensamentos. O cérebro pensa sem pedir nossa permissão. Nós acreditamos, ou desacreditamos, sem um esforço da vontade. A crença é um resultado. É o resultado de evidências sobre a mente. Os fatos mudam apesar daquele que os observa. Não há nenhum lugar para ser honesto ou desonesto na formação de uma opinião. A conclusão é inteiramente independente da vontade. Devemos acreditar, ou devemos mudar, apesar de nossos desejos.

O que deve ser, tem o direito de ser.

Nós pensamos apesar de nós mesmos. O cérebro pensa como o coração bate, como os olhos vêem, como o sangue segue seu curso nas suas vias usuais.

A questão, então é, não ter o direito de pensar, -- sendo uma necessidade, -- mas devemos ter o direito de expressar nossas idéias honestas? O senhor certamente tem o direito de expressar as suas, e tem exercido este direito. Alguns dos seus colegas, que me consideram um monstro, têm também expressado as suas. A questão agora é, tenho eu o direito de expressar as minhas? Em outras palavras, tenho o direito de responder sua carta? Fazer do que é um crime em mim uma virtude no senhor certamente vem daquela definição sua de superstição. Exercer o senhor mesmo um direito que nega a mim é simplesmente o ato de um tirano. De onde veio o seu direito de expressar suas idéias honestas? Onde, quando e como eu perdi o meu?

O senhor certamente não me queimaria e nem sequer me aprisionaria, porque minha diferença com o senhor é sobre questões das quais nenhum de nós conhece. Para o senhor a selvageria da inquisição é apenas uma prova da depravação do homem. O senhor é muito melhor do que sua crença. O senhor acha que até o mundo cristão está superando o terrível sentimento de que o archote, a masmorra, o esmagador de polegares são argumentos legítimos, calculados para convencer aqueles sobre os quais estes instrumentos eram usados, que a religião daqueles que os usavam fora fundada por um Deus de infinita compaixão. O senhor admitirá que aqueles que perseguem por diferenças de opinião são infames. E, no entanto, o Deus que o senhor adora, de acordo com sua crença, torturará por toda a eternidade aquele homem que expressa uma dúvida honesta. A crença desse Deus é a fundação de toda a perseguição religiosa. O senhor alega que só a crença num Deus falso faz os homens desumanos. Mas o senhor admite que os judeus acreditavam num Deus verdadeiro, mas é forcado a dizer que eles eram tão maliciosos, tão cruéis, tão selvagens, que eles crucificaram o único Ser Imaculado que já existiu. Este crime foi cometido, não apesar de sua religião, mas de acordo com ela. Eles simplesmente obedeceram ao comando de Jeová. E os seguidores desse Ser Imaculado que, por todos esses séculos, denunciaram as crueldades dos judeus que crucificaram um homem por sustentar uma opinião, destruíram milhões de seus semelhantes por terem idéias diferentes das suas. E esse mesmo Ser Imaculado ameaça com a tortura eterna no fogo muitos homens, pela mesma ofensa. Não existe incoerência maior que esta. Absurdo maior não pode existir.

Sua crença transferiu a inquisição para um outro mundo, tornando-a eterna. Seu Deus se torna, ou melhor, é, um Torquemada infinito, que nega às suas incontáveis vitimas até mesmo a misericórdia da morte. E isso o senhor chama de "consolação".

O senhor insiste que na fundação de qualquer religião está a idéia de um Deus. De acordo com sua crença, todas as idéias de Deus, exceto aquelas concernentes com a sua fé, são absolutamente falsas. O senhor não é chamado para defender os deuses das nações extintas, nem os deuses dos hereges. Seu negócio é defender o Deus da bíblia – o Deus da igreja presbiteriana. Quando nas disputas, defendendo sua fé, o senhor deve vestir o uniforme da sua igreja. O senhor não ousa dizer que é suficiente para ser salvo defender a idéia de Deus, ou em algum deus. De acordo com sua crença, as pessoas devem acreditar no seu Deus. Todas as nações extintas acreditaram em deuses, e todos os adoradores de Zeus, e Júpiter, e Isis, e Osíris, e Brama rezavam e se sacrificavam em vão. Suas solicitações não eram atendidas, e suas almas não eram salvas. Certamente o senhor não afirma ser suficiente acreditar em algum dos deuses dos pagãos.

Que razão tem o senhor de ocupar as idéias dos deístas, e desprezar argumentos que até os cristãos já responderam? Os deístas denunciaram o Deus da bíblia por causa de sua crueldade, e ao mesmo tempo eles riam do deus da natureza. Os cristãos respondiam que o deus da natureza é tão cruel como o deus da bíblia. Sua resposta estava completa.

Sinto que o senhor tem tendência a admitir que ninguém tem sido tão ignorante, tão degradado, para acreditar no sobrenatural; e eu dou ao senhor a vantagem desta admissão. Apenas uns poucos – entre eles os mais sábios, os mais nobres e puros da espécie humana – têm classificado todos os deuses como mitos monstruosos. Entretanto, a crença no Deus verdadeiro não parece ser suficiente para tornar o homem caridoso e justo. Para muitos o teísmo é a solução mais fácil do universo. Eles estão satisfeitos em dizer que tem de existir um Ser que criou e governa o mundo. Mas a universalidade de uma crença não a torna verdadeira. A crença de um diabo maligno é tão antiga quanto a crença num Deus beneficente e, no entanto, poucos homens inteligentes diriam que a crença em demônios seja prova de que eles existem.no mundo das idéias as maiorias não significam nada. A verdade sempre esteve do lado de poucos.

O homem tem enchido o mundo com monstros impossíveis, e ele tem sido a caça e a presa desses fantasmas nascidos da esperança, ignorância e medo. Para acalmar a ira desses monstros o homem tem sacrificado seus semelhantes. Ele tem derramado o sangue de esposas e filhos; ele tem jejuado e rezado; ele tem sofrido além da capacidade que a língua pode expressar e, entretanto ele não tem recebido nada desses deuses – eles não ouvem qualquer súplica. Eles não respondem a nenhuma oração.

O senhor pode alegar que seu Deus pode mandar chuva para o justo e para o injusto, e isto provaria que ele é misericordioso para com todas as suas criaturas. Eu respondo que seu Deus manda as pestes para os justos e injustos – que seus terremotos devoram e seus ciclones atacam e destroem os bons e os degradados, o honesto e o criminoso. Isto não provaria que Deus é mau para todos igualmente? Em outras palavras, não demonstraria a absoluta imparcialidade da divina negligência?

O senhor não acha que um homem justo e de inteligência mediana, tendo absoluto controle da chuva, poderia fazer de maneira muito melhor do que é feito? Certamente não ocorreria nenhuma seca e nenhuma enchente; as plantações não seriam deixadas murchar e morrer enquanto água seria desperdiçada no oceano. Seria concebível que um homem que tivesse controle sobre o vento não evitasse os ciclones? O senhor não confiaria mais num homem sábio e honesto com os raios?

Por que um Deus infinitamente sábio e poderoso destrói os bons e poupa os maus? Por que ele trata todos igualmente aqui, enquanto que num outro mundo faria diferente? Por que seu Deus permitiria que seus adoradores, seus aduladores sejam destruídos pelos inimigos? Por que ele permitiria que uma pessoa honesta, gentil e nobre perecesse numa fogueira? Pode responder a estas questões? Não ocorre ao senhor que seu Deus deve ter sentido uma ponta de vergonha quando a pobre escrava – aquela que teve seu bebê roubado – ajoelhou-se e com as mãos juntas, e com uma voz cortada por soluços começou sua oração com a palavra "Meu Pai"?

Causou-me satisfação descobrir que apesar de sua crença, o senhor é filosófico o suficiente para afirmar que alguns homens são incapacitados, por motivos de temperamento, em acreditar em evidências de um Deus. Mas, se a crença num Deus é algo necessário para a salvação da alma, por que Deus criaria alguém sem esta capacidade? Por que ele criaria pessoas, já sabendo que elas seriam condenadas? O senhor parece acreditar que é necessário ser poético, sonhador para ser religioso, e por inferência, pelo menos, o senhor nega em mim certas qualidades que julga necessárias. O senhor condena o ateísmo de Shelley acusando-o de não ser poético, e cita estas linhas para provar a existência do mesmo Deus que ele nega tão apaixonadamente? Seria possível que Napoleão – um dos homens mais infames – tinha qualidades tão grandes que o tornavam sensível a divinas influências? O senhor deseja provar a existência de um tirano usando as palavras de um outro? Pessoalmente tenho muito pouca confiança numa religião que satisfaça o coração dos homens que, para satisfazer sua ambição, enche o mundo com órfãos e viúvas. A respeito de Agassiz, é justo dizer que ele reuniu um grande volume de testemunhos em favor da verdade das teorias de Darwin, e depois negou a correção das teorias – preferindo as boas opiniões de Harvard nos primeiros dias, aos aplausos finais do mundo intelectual.

Eu concordo com o senhor que este mundo é um mistério, não um, mas que tudo na natureza é igualmente misterioso, e que não há como escapar do mistério da vida e da morte. Para mim a cristalização da neve é tão misteriosa quanto o mistério das constelações. Mas quando o senhor tenta explicar o mistério do universo com o mistério de Deus, o senhor não está apenas trocando de mistérios, mas apenas criando um novo.

O senhor admite que o Deus da natureza – ou seja, seu Deus – é tão inflexível como a própria natureza. Por que o homem deveria adorar o inflexível? Para que se ajoelhar diante do imutável? O senhor afirma que seu Deus "não se curva ao pensamento humano, nem à sua vontade", que "quanto mais o estudamos, mais descobrimos que ele não é o que imaginávamos". Então, afinal, a única coisa da qual temos certeza em relação a Deus é que ele não é o que pensamos. Não seria quase um absurdo afirmar que este estado da mente é necessário para a salvação, ou uma maneira de contenção moral, ou a fundação da ordem social?

As nações mais religiosas têm sido as mais imorais, as mais cruéis e injustas. A Itália ficou muito pior entre os papas do que entre os césares. Haverá nação mais bárbara do que a Espanha do século dezesseis? Certamente o senhor deve saber que o que chama religião produziu mil guerras civis, e que tem cortado com a espada todas as amarras que produzem "a unidade e calma dos estados". A teologia é a mãe fértil da discórdia; a ordem é filha da razão. Se o senhor considerar calmamente esta questão – se o senhor se livra por uns instantes de suas idéias preconcebidas – o senhor verá instantaneamente o instinto de auto-preservação que mantém a sociedade unida. A religião também nasceu por instinto. Pessoas, sendo ignorantes, acreditavam que os deuses eram ciumentos e vingativos. Essas pessoas encheram o espaço com fantasmas que exigiam adoração e se deleitavam com sacrifícios e cerimônias, fantasmas que podiam ser bajulados com homenagens, e manipulados com orações. Essas pessoas ignorantes desejavam preservar a si mesmas. Elas supunham que, dessa maneira, poderiam evitar as pestes e a fome, e evitar, se possível, o dia da morte. O senhor não acha que auto-preservação está na fundação da adoração? Nações, como indivíduos, têm medos, ideais, e vivem para atingir certos fins. Homens defendem sua propriedade por causa do seu valor. Homens, de regra, desejam viver, e por este motivo assassinato é crime. A fraude é odiosa para vítima. A maioria da humanidade trabalha para produzir os bens, os confortos, e os luxos da vida. Eles desejam preservar os frutos do seu trabalho. O governo é um dos artifícios para a preservação daquilo que o homem preza. Esta é a fundação da ordem social, e isto é o que mantém a sociedade unida.

A religião tem sido inimiga da ordem social, porque ela desvia a atenção do homem para um outro mundo. Ela ensina seus seguidores a sacrificar esta vida em beneficio de uma outra. O efeito é um enfraquecimento dos laços que mantêm famílias e estados unidos. Afinal, qual é o valor de qualquer coisa neste mundo, em comparação com uma infinidade de alegrias?

O senhor diz que o homem não é capaz de se auto-governar, e que Deus cometeu o erro de encher o mundo de falhas – em outras palavras, que o homem deve ser governado, não por si próprio, mas pelo seu Deus, e que seu Deus produz ordem, e estabelece e conserva todas as nações da terra. Sendo assim, seu Deus é responsável pelos governos do mundo. Será que ele preserva a ordem na Rússia? Ele cuida da Sibéria? Será que ele instituiu a escravidão? Foi ele o fundador da inquisição?

O senhor responde todas estas questões chamando minha atenção para as recompensas da história. Quais são as recompensas? Os honestos eram queimados na fogueira; os patriotas, os generosos, os nobres eram deixados para morrer nas masmorras; raças inteiras eram escravizadas; milhões de mulheres tiveram seus bebês roubados. Quais foram as recompensas da história? Aqueles que cometeram esses crimes usavam coroas, e aqueles que justificaram essas infâmias eram adornados com uma mitra.

O senhor está enganado quando diz que Lincoln exclamou em Gettysburg: "Justo e verdadeiro é o vosso julgamento, Deus Pai Todo Poderoso". Algo semelhante a isto ele disse no seu último discurso, em que ele falou da sua esperança de que os combates terminassem breve: "Se isto continuar até que a última gota de sangue escorra da última ferida, deverá ser pago com outra, aberta com a espada, ainda assim se poderia dizer: ‘O julgamento de Deus é justo e verdadeiro ao mesmo tempo’". Mas admitindo que o senhor esteja correto na sua afirmação, deixe-me fazer uma pergunta: poderia alguém, estando junto ao corpo de Lincoln, o sangue ainda escorrendo lentamente dos ferimentos causados pelo fanático, dizer com sinceridade: "Justos e verdadeiros são vossos julgamentos, Senhor Deus Todo Poderoso?"

O senhor realmente acredita que este mundo é governado por um Deus infinitamente sábio e bom? O senhor já conseguiu se convencer disso? Como Deus permitiria o triunfo da injustiça? Como o inocente pode ser torturado? Como os mais nobres podem ser destruídos? Por que o mundo tinha de ser preenchido por misérias, ignorância e necessidades? Qual razão o faz acreditar que seu Deus fará melhor num outro mundo, do que ele fez, e tem feito neste? Ele se tornará mais sábio? Ele se transformará em alguém mais misericordioso?

Quando digo "seu Deus" claro que estou descrevendo aquele Deus citado na bíblia, e na confissão de fé presbiteriana. Mas novamente eu digo que na natureza das coisas não poderá haver qualquer evidência de que exista um Deus infinito.

Um ser infinito teria de ser incondicional e, por conseguinte, não haveria nada que um ser finito pudesse fazer que, de qualquer modo que seja, pusesse afetar bem estar do incondicional. Sendo assim, o homem não pode dispensar nenhum dever ou obrigação para um ser infinito. Um ser infinito não pode desejar, e o homem não pode fazer nada por um ser que não deseja nada. Um ser condicional pode ser alegrado, ou triste, mudando as condições, mas o incondicional é absolutamente independente de causa e efeito.

Não estou afirmando que Deus não existe, nem digo que Deus existe; mas eu digo que não sei – que não pode haver evidências de tal ser, e que minha mente é tal que não posso nem conceber a existência de uma personalidade infinita. Eu sei que na sua crença o senhor descreve Deus como "sem corpo, partes ou paixões". Isto, na minha compreensão é simplesmente a descrição de um vácuo infinito. Não tenho tido experiência alguma com deuses. Este mundo é o único que conheço, e fiquei surpreso em encontrar na sua carta a expressão de que "talvez outros tenham experiência naquilo sobre o que sou ignorante". Está querendo dizer que o senhor sabe alguma coisa a respeito de outros estados de existência – que o senhor tenha habitado outros planetas – que já viveu antes de ter nascido, e que se lembra de algo de outro mundo, ou daquele outro estado?

Sobre o estado da imortalidade, o senhor fez, para mim, mesmo sem intenção, uma grande injustiça. A respeito dessa esperança, eu nunca exclamei uma única palavra. Já disse milhares de vezes, e digo novamente, que a idéia da imortalidade que, como uma mar, inundou o coração humano, com suas ondas incontáveis de medo, e batendo contra o cais do tempo e destino, e não nasceu em nenhum livro, em nenhum credo, e em nenhuma religião. Ela nasceu da afeição humana, e continuará a inundar além das névoas e nuvens da dúvida e da escuridão, até quando o amor beije os lábios da morte.

Já disse milhares de vezes, e digo de novo, que nós não sabemos, não podemos dizer, se a morte é uma porta ou um muro – o começo, o fim ou um dia – a revoada de pássaros num vôo, ou o recolher eterno das asas – o nascer ou o por do sol, ou uma vida eterna, que trará êxtase e amor para todos.

A crença na imortalidade é muito mais antiga que o cristianismo. Milhares de anos antes de cristo milhões de pessoas nasceram e viveram com esta esperança. Sobre muitos túmulos têm sido colocados, com amor e lágrimas, os símbolos de uma outra vida. O céu do novo testamento deveria ser neste mundo. Os mortos, depois de reviver, deveriam viver aqui. Nenhuma outra palavra se supõe ter sido dita por Cristo – nada filosófico, nada claro, nada que adorna, como uma promessa, as nuvens da dúvida.

De acordo como que é dito no novo testamento, Cristo ficou morto por um período de três dias. Após sua ressurreição, por que nenhum dos apóstolos perguntou onde ele estivera? Por que ele não disse quais mundos visitara? Aquela era a oportunidade de trazer à luz a vida e a imortalidade. E, no entanto, ele ficou tão mudo quanto a tumba de onde dele saiu. Calado como a pedra que os anjos rolaram.

Como o senhor explica isto? Não foi infinitamente cruel deixar o mundo na escuridão e na dúvida, quando uma só palavra teria enchido o mundo com esperança e luz?

A esperança na imortalidade é o grande carvalho em torno do qual rastejam as serpentes venenosas da superstição. As serpentes não apóiam o carvalho. O carvalho é quem dá sustentação às serpentes. Desde quando os homens vivem e morrem, esta esperança irá florescer no coração humano.

Tudo o que tenho dito sobre esta questão são para expressar minha esperança e para confessar minha falta de conhecimento. Nem minha palavra nem minhas expressões têm levantado o menor sentimento que não o de simpatia por aquelas pessoas que têm esperança de viver novamente – por aqueles que se curvam sobre seus mortos e sonham com uma vida futura. Mas tenho denunciado o egoísmo e impiedade daqueles que esperam para si mesmos uma eternidade de alegrias, e para o resto da humanidade, sem uma única lágrima, um mundo de dores infindáveis. Nada pode ser mais desprezível do que essa esperança – uma esperança que só pode dar satisfação às hienas da espécie humana.

Quando digo que não sei – quando nego a existência da perdição, o senhor responde que "há algo muito cruel neste tratamento da crença dos meus semelhantes."

O senhor teria a bondade para me convidar para um túmulo sobre o qual uma mãe se curva e chora por seu único filho. Por favor, peço-lhe para não usar generalizações. Seja explicito. Lembre-se de que o rapaz sobre o qual a mãe chora não era cristão, não acreditava na inspiração da bíblia, nem na divindade de Jesus Cristo. A mãe se volta para o senhor buscando consolo, alguma esperança na noite de dor. O que o senhor diria? Não despreze a crença presbiteriana. Não esqueça as ameaças de Jesus Cristo. O que o senhor deveria dizer? Leria uma parte da confissão presbiteriana da fé? O senhor leria isso?

"Apesar da luz da natureza e os trabalhos da criação e providência, manifeste a bondade, a sabedoria, o poder de Deus para deixar o homem indesculpável, porque eles não são suficientes para dar o conhecimento de Deus e sua vontade que é necessária para a salvação."

Ou leria isto?

"Pelo decreto de Deus pela manifestação de sua glória, alguns homens e anjos são predestinados a uma vida eterna, e outros a uma morte eterna. Esses anjos e homens assim predestinados e ordenados são particularmente e inexoravelmente destinados, e seu número é tão certo e definitivo que não poderá ser aumentado ou diminuído".

Suponha que a mãe, levantando o rosto molhado de lágrimas, dissesse: "Meu filho era bom, generoso, gentil e carinhoso. Ele deu a vida por mim. Não há nenhuma esperança por ele?" Colocaria o senhor esta serpente em seu seio?

"Os homens que não professam a fé cristã não podem ser salvos de nenhuma maneira, nem que sejam diligentes em viver suas vidas de conformidade com a luz da natureza. Não podemos, por nosso trabalho, dar mérito ao perdão dos pecados. Não há pecado tão pequeno além daquele que mereça punição eterna. Trabalhos feitos por homens não regenerados, portanto, por coisas que Deus comanda, e para bons usos tanto para si como para os outros, são pecaminosos e não podem agradar a Deus ou poderá fazer um homem encontrar Jesus ou Deus."

E suponha que a mulher pergunte, soluçando: "O que aconteceu com meu filho? Onde está ele agora? " O senhor lerá ainda sua confissão de fé ou isto, do catecismo?

"As almas dos condenados são mandadas para o inferno, onde ficam em tormento e escuridão, reservados para o julgamento do grande dia. No último dia, os justos deverão ganhar vida eterna, mas os maus serão lançados no sofrimento eterno e punidos num indescritível tormento, no corpo e na alma, com o demônio e seus anjos, para sempre."

Se a pobre mãe ainda chora, ainda desejando ser confortada, o senhor enterraria este punhal no seu coração?

"No Dia do Julgamento, anunciado por Cristo nas nuvens você, depois de ser chamado por Cristo, deverá estar sentado à sua direita, e deverá acompanhá-lo da condenação do seu filho."

Se isto não for suficiente para parar os batimentos do seu coração, o senhor repetiria aquelas palavras que se diz terem saído da amorosa alma de Cristo?

"Aqueles que acreditarem e forem batizados serão salvos, e aqueles que não acreditarem serão condenados: e estes deverão ir para o fogo eterno preparado pelo demônio e seus anjos."

O senhor são seria compelido, de acordo com sua crença, a dizer a essa mulher que "só há um nome dado sob o céu e entre os homens que existem" que as almas dos homens podem entrar no portão do paraíso? O senhor não seria compelido a dizer: "seu filho viveu num país cristão. O caminho da graça esteve nas suas mãos. Ele viveu sem experimentar a mudança no coração, e por isso seu filho está para sempre perdido. A senhora só poderá encontrá-lo novamente se morrer no pecado; mas se a senhora der o coração a Deus, nunca poderá novamente apertá-lo no peito."

O que eu diria? Deixe-me dizer: "Minha cara senhora, este reverendo não sabe de nada do mundo futuro. Ele não pode ver além da tumba. Ele apenas disse à senhora as superstições da ignorância, da crueldade e medo. Se houver neste universo um Deus, ele certamente é tão bom como a senhora. Se ele amava seu filho, segundo este senhor pastor, a ponto de ter dado sua vida por ele; por que este amor se transformaria em ódio no momento da morte do seu filho?

"Minha cara senhora, não há punição, não há recompensas – há conseqüências; e de uma coisa esteja certa; qualquer alma, seja em que esfera ela habite, terá a oportunidade da fazer o certo.

"Se a morte for o fim, e se este monte de cinzas sobre o qual a senhora chora for tudo o que resta, a senhora tem este consolo: o seu filho não está sob o jugo deste Deus de quem este reverendo fala – isto já é muito. Seu filho não sofre. Depois de uma vida feliz há o sono infinito da morte."

Não lhe parece infinitamente absurdo classificar o cristianismo ortodoxo de "consolo"? Aqui neste mundo, onde cada ser humano é envolto em nuvens e névoa, -- onde toda vida é envolvida com erros, -- onde ninguém alega ser perfeito, é um consolo afirmar que a menor falta merece a punição eterna? Será possível para a ingenuidade humana, extrair da doutrina do inferno uma gota, um raio de "consolo"? Se esta doutrina é verdadeira, não será o seu Deus um criminoso eterno? Como ele pode ter criado milhões de criaturas destinados ao sofrimento eterno? Por que ele não os deixaria permanecer como pó inconsciente? Comparado com este crime, qualquer crime que o homem possa cometer é uma virtude.

Pense um momento no seu Deus, -- o mantenedor de uma penitenciária universal cheia de condenados imortais, -- seu Deus um eterno carcereiro, sem o poder de perdoar. Em presença deste infinito horror, sua fala complacente de expiação, -- uma idéia que não captou nem um bilionésimo da espécie humana, -- uma expiação na qual a metade da humanidade permanece afastada, quinze séculos depois que ela foi criada.

Se não existisse nenhum sofrimento não haveria nenhum pecado. Causar sofrimento injusto é o único crime possível. Como poderia um Deus aceitar o sofrimento do inocente no lugar da punição do culpado?

De acordo com sua teoria, este ser infinito, por sua própria vontade, fez o certo e o errado. Isto eu não admito. O certo e o errado existem na natureza das coisas – na relação que elas mantêm com o homem, e para os seres sensíveis. O senhor já admitiu que a "natureza é inflexível, e que uma lei violada traz suas conseqüências." Eu insisto que nenhum Deus daria um passo entre uma lei e suas conseqüências naturais. Se Deus existe, ele não tem nada a ver com punição, nada a ver com recompensas. De certos atos surgem as conseqüências; essas conseqüências aumentam ou diminuem a felicidade do homem; e as conseqüências surgem.

Um homem que destrói sua vida, para a comunidade ele pode ser perdoado, mas um homem que violentou a natureza de seu próprio bem estar não pode ser perdoado – não existe força de perdão. As leis do estado são feitas e, sendo feitas, podem ser mudadas. As relações do ato com a conseqüência não podem ser alteradas. Isto está acima de qualquer força, e conseqüentemente, não existe analogia entre leis de estado e fatos da natureza. Um Deus infinito não pode mudar a relação entre o diâmetro e a circunferência de um círculo.

Um homem, depois de cometer um crime pode ser perdoado, mas eu nego a um estado o direito de punir um inocente no lugar do perdoado – não importa tão desejoso esteja o inocente em sofrer a punição. Não há nenhuma lei na natureza, nenhum fato na natureza, que indique que um inocente possa ser justamente punido para que o culpado seja libertado. Vamos deixar claro de uma vez por todas: a natureza não pode perdoar.

O senhor reconhece esta verdade. O senhor me perguntou o que acontecerá com aquele que seduz e trai, ou daquele criminoso cujo sangue da vítima está em suas mãos? Sem a menor hesitação eu respondo que quem quer que seja que cometa um crime contra outro deve, seja neste mundo ou num outro, se existir, fazer uma restituição, e além disso, deve carregar as conseqüências naturais de sua ofensa. Nenhum homem pode ser perfeitamente feliz, nem neste mundo nem noutro depois de, numa traição, ter partido um coração confiante e amoroso. Nenhuma força se coloca entre atos e conseqüências – nenhum perdão, nenhuma expiação.

Mas, meu caro amigo, o senhor tem ensinado, por muitos anos, se é um presbiteriano, ou um cristão evangélico, que um homem pode seduzir e trair, e que a pobre vítima, levada à insanidade, jogando-se de um cais numa noite em que os barcos se sustentam nas âncoras na tempestade – o senhor ensinou que esta pobre moça será eternamente atormentada por um Deus de infinita compaixão. Isto não é tudo o que tem ensinado. O senhor disse ao sedutor, ao ofensor, para aquele que não ouviu os seus gritos e seu choro, -- aquele que jamais estenderia sua mão para agarrar suas roupas rasgadas, -- o senhor disse a ele: "Acredite no Senhor Jesus Cristo, e será feliz para sempre; viverá no mundo do deleite eterno, de onde pode, sem uma sombra caindo na sua face, observar a pobre moça, sua vítima, nas agonias do inferno." O senhor ensinou isto. Por mim, não vejo como um anjo do céu, encontrando um outro anjo que ele roubou na terra, poderia se sentir inteiramente feliz. Vou mais além. Qualquer anjo decente, não importa se esteja sentado ao lado direito de Deus, poderia ver no inferno uma das suas vítimas, poderia deixar o céu sozinho com o propósito de enxugar uma lágrima do rosto do condenado.

O senhor parece ter esquecido sua declaração do início de sua carta, que seu Deus é inflexível como a natureza – que ele não se curva aos pensamentos e desejos humanos. O senhor parece ter esquecido a linha que o senhor enfatiza com itálicos: "O efeito de tudo o que existe na natureza de uma causa é eterno". À luz desta sentença, onde o senhor encontra lugar para o perdão – para sua expiação? Onde há lugar para escapar do efeito de uma força que é eterna? O senhor não vê que esta sentença é uma corda com a qual eu amarro facilmente suas mãos? A parte científica de sua teoria destrói a parte teológica. O senhor colocou "vinho novo em velhas garrafas" e o resultado previsível apareceu. Será que os anjos do céu, os redentores da terra, perderão suas memórias? Será que todos os canalhas redimidos lembrarão suas canalhices? Será que todos os assassinos redimidos lembrarão as faces da morte? Será que todos os sedutores e traidores lembrarão os suspiros, as lágrimas, os tons de voz, e será que a consciência dos redimidos será tão inexorável como a consciência dos condenados?

Se a memória for para sempre, "o carcereiro da mente", e se os redimidos nunca puderem esquecer os crimes que cometeram, a dor e angústia que causaram, eles nunca poderão ser perfeitamente felizes; e se os perdidos nunca esquecerem o bem que fizeram, as boas ações, as palavras amorosas, os atos heróicos; e se a lembrança das coisas boas derem a menor satisfação, então os condenados não poderão nunca ser totalmente infelizes. Será que as lembranças de uma boa ação não devem durar tanto quanto as lembranças dos maus atos? De tal maneira que as lembranças infinitas dos bons, no céu, trazem dor infindável, e as memórias infinitas dos que estão no inferno trazem infinita alegria. O senhor não vê que, se o homem faz o certo e o errado, não pode haver no futuro nem um perfeito céu nem um perfeito inferno?

Eu acredito na doutrina humana de que o homem deve assumir as conseqüências dos seus atos e que nenhum homem pode ser salvo ou condenado de modo justo, no lugar da bondade ou maldade de outro homem.

Se por expiação o senhor considera o efeito natural de auto-sacrifício, o efeito seguindo-se uma ação nobre e desinteressada; se o senhor considera que a vida e morte de Jesus valeu a pena sobre seus efeitos na espécie humana, -- como sua carta parece mostrar, -- então não há discordâncias entre nós. Se o senhor jogou fora a idéia antiga e bárbara de que uma lei foi quebrada, e que Deus exigiu um sacrifício, e que Cristo, o inocente, foi oferecido a nós e que ele acalmou a ira de Deus e sofreu em nosso lugar, então eu me congratulo com o senhor com todo o coração.

Parece-me impossível que a vida seja demasiadamente feliz para qualquer um que tenha contacto com as misérias, os sofrimentos, as lágrimas. Eu sei que assim como a escuridão se segue depois da luz no globo, a miséria e desgraça seguem os filhos dos homens. De acordo com sua crença, a situação futura será pior que a atual. Aqui, o viciado pode ser reformado; aqui, o mau pode arrepender-se; aqui, uns poucos raios de luz podem brilhar na escuridão da vida. Mas, no seu estado futuro, para milhões de seres humanos, não haverá nenhuma recuperação, nenhuma oportunidade de fazer o certo, e nenhuma fagulha de luz jamais poderá tocar suas almas. Não vê que o futuro que o senhor espera é infinitamente pior do que o presente? O senhor parece confundir o clarão do inferno com a luz da manhã.

Joguemos fora o dogma da condenação eterna. Vamos nos "agarrar a tudo o que pode trazer um raio de esperança para dentro da escuridão desta vida".

O senhor foi gentil o suficiente para dizer que eu faço objeto de caricatura a doutrina da regeneração. Se, por regeneração, o senhor quer dizer recuperação, -- se quer dizer que ocorre um momento na vida de um jovem em que ele sente o toque da responsabilidade, e deixa seus caminhos errados, e conclui que deve agir como um homem honesto, -- se é isto o que o senhor considera regeneração, então eu sou um crente. Mas esta não é a definição de religião na sua crença – esta não é a regeneração cristã. Existe um meio misterioso, supernatural, miraculoso e invisível, chamado, acho eu, Espírito Santo, que penetra e modifica o coração do homem, e sua misteriosa aparência é como o vento, aparentemente sob o controle de ninguém, indo e vindo conforme lhe apraz. Esta é a visão ilógica e absurda da regeneração que eu ataco.

O senhor me perguntou como se explica que um peão hebreu, nascido nas montanhas da Galiléia, tinha uma sabedoria superior à de Sócrates, Platão, Confúcio e Buda, e conclui dizendo que "este é o maior de todos os milagres, -- que este ser tenha vivido e morrido na face da terra."

Eu não posso concordar com sua conclusão, porque lembro que Jesus não disse nada em favor das relações familiares. Na verdade, na sua vida ele lançou descrédito sobre o casamento. Ele nada disse contra a instituição da escravidão; nada contra a tirania dos governos, nada sobre a defesa dos animais; nada sobre educação, sobre o progresso intelectual; nada sobre arte. Não fez nenhuma declaração científica, e nada disse sobre os direitos e deveres das nações.

O senhor poderia responder que tudo isso está incluído no ensinamento "Fazei aos outros o que desejas para vós". Ou "não resisti ao mal". Só que é necessário mais que isto para educar a espécie humana. Isto não é o suficiente para ensinar ao seu filho ou aluno "faça o correto". A grande questão ainda fica: O que é o correto? Não há nenhuma sabedoria na idéia de não resistir ao mal. Força sem misericórdia é tirania. Misericórdia sem força não é nada mais do que desperdício de lágrimas. Tire da sua virtude o direito de autodefesa, e o mal se tornará o senhor do mundo.

Deixe-me perguntar como foi possível que um rude tratador de camelos, um homem sem família, sem riquezas, tornou-se mestre de milhões de seres humanos? Como explicar que ele liderou e conquistou mais da metade do mundo cristão? Como explicar que em milhares de campos com a cruz foram derrotados com sangue, enquanto que a bandeira com a lua crescente triunfou? Como explicar que até hoje a bandeira desse impostor tremula sobre o sepulcro de Cristo? Foi isso um milagre? Maomé era também inspirado? O que o senhor acha de Confúcio, cujo nome é conhecido onde o sol se põe? Era ele inspirado – este homem que por séculos reinou sozinho, e que é considerado o maior por centenas de milhares de seus compatriotas? O que acha de Buda, -- em vários aspectos a maior religião que já surgiu na terra, a mais profunda, a mais intelectual de todas; aquele que era grande o suficiente muito antes de Jesus ter nascido, para declarar que os homens são todos irmãos, e que a inteligência é a única maneira de elevar a humanidade? O que acha dele, que teve mais seguidores do que qualquer outro? O senhor quer dizer que todo sucesso é divino? O que acha então de Shakespeare, filho de pais que nem sabiam ler e escrever, nascido da ignorância e amor, nutrido no seio da pobreza – o que acha dele, um dos grandes da raça humana, em cujas asas da imaginação encheram os horizontes da humanidade; Shakespeare, que conhecia como poucos o coração humano, conhecia todas as profundezas da dor, todas as alturas da alegria, e em cuja mente estava o fruto do saber, da experiência, e da profecia de tudo; Shakespeare, cujas palavras sábias, profundas e belas aumentaram a inteligência e civilização do homem? Como explica este milagre? O senhor acredita que algum fundador de religião poderia ter escrito o "Rei Lear" ou "Hamlet"? Será que a Grécia poderia, de alguma maneira, produzir um escritor que pudesse ser o autor de "Troilos e Cressida"? Haveria dentro da toda poderosa Roma algum intelecto capaz de ter escrito Júlio César? Não é "Antônio e Cleópatra" tão egípcio quanto o Nilo? O que o senhor acha deste homem, em cujas veias pareciam correr o sangue de todas as raças e em cuja mente estava toda a poesia e filosofia do mundo?

O senhor me pede para dizer minha opinião sobre Cristo. Deixe-me dizer, de uma vez por todas, que pelo homem Cristo, -- pelo homem que, na escuridão gritou: "Meu Deus, por que me abandonaste?" – por este homem tenho o maior respeito. E deixe-me dizer, de uma vez por todas, que o lugar onde um homem morreu por um homem é um local sagrado. Por aquele grande e sereno peão da Palestina, eu pago alegremente o tributo de admiração e minhas lágrimas. Ele foi um revolucionário do seu tempo. Atrás da máscara teológica, e apesar das interpolações do novo testamento, eu vejo um grande e genuíno homem.

Acho difícil ver como o senhor pode defender constantemente o curso percorrido por Cristo. Ele atacava com amargura "a religião dos outros". Não ocorria a ele que havia "um algo muito cruel no seu tratamento das crenças de seus conterrâneos." Ele denunciou o povo escolhido por Deus como uma "geração de víboras"ele os comparou com "sepulcros caiados". Como o senhor defende a conduta dos missionários? Eles viajam a outras terras, atacam as crenças sagradas dos outros. Eles dizem aos povos da Índia e outros povos pagãos não só que sua religião é uma mentira, não só que seus deuses são mitos, mas que os ancestrais desses povos – seus pais e mães, que nunca ouviram de Deus e da bíblia, ou de Cristo – estão todos na perdição. Não seria isto uma maneira cruel de tratar a crença de um semelhante?

Uma religião que não é tão humana e robusta para aceitar ataques com um sorriso de segurança não é merecedora de um lugar no coração e na mente. Uma religião que procura refúgio no sentimentalismo, e que grita: "Por favor, eu lhe peço, não me diga nenhuma verdade destinada a ferir meus sentimentos!" só é adequada para hospícios.

O senhor diz que Cristo era um Deus, que ele era infinito em poder. Quando em Jerusalém, ele curava os doentes, levantou alguns poucos mortos, abriu os olhos de alguns cegos. Será que ele fez essas coisas porque amava a humanidade, ou terá ele feito esses milagres para estabelecer o fato de que ele era o verdadeiro Cristo? Se ele era movido pelo amor, será que ele não é hoje tão poderoso quanto naquele tempo? Por que ele não abre os olhos dos cegos agora? Por que ele não limpa um leproso instantaneamente, com um toque? Se o senhor tivesse o poder de dar a luz aos cegos, curar a lepra, e não fizesse isso, o que poderia ser dito do senhor? Qual é a diferença entre aquele que pode, mas não cura, e aquele que causa doenças?

Um dia desses, visitei uma bela moça – uma paralítica e, no entanto seu espírito bravo e alegre contrastava com o desastre que era seu corpo, uma manhã num deserto. O que eu poderia pensar de mim mesmo, se eu tivesse o poder de, numa palavra, fazer o sangue circular novamente nos seus membros atrofiados, dando-lhes vida novamente, e me recusasse?

A maioria dos teólogos parece imaginar que a virtude nasceu e é filha da religião.

Religião tem a ver com o sobrenatural. Ela define nossos deveres e obrigações, ela prescreve alguns caminhos de conduta que permitirão a chegada a outro mundo. Os resultados aqui são apenas incidentes. As virtudes são profanas. Elas nada têm a ver com o sobrenatural, e não são parentes de nenhuma religião. Um homem pode ser honesto, corajoso, caridoso, industrioso, hospitaleiro, amoroso e puro, sem ser religioso – ou seja, sem nenhuma crença no sobrenatural; e um homem pode ser o extremo oposto e ao mesmo tempo um sincero crente numa religião – ou seja, na existência de um Deus paternal, a inspiração das escrituras, e a divindade de Jesus Cristo. Um homem que acredita na bíblia pode ser ou não uma pessoa boa para sua família, e um homem que é bom e carinhoso com sua família pode ser ou não um crente na bíblia.

Para que o senhor perceba o efeito da crença na formação do caráter, só é necessário chamar sua atenção para o fato de que sua bíblia mostra que o diabo em pessoa é um crente na existência de Deus, na inspiração das escrituras, e na divindade de Jesus Cristo. Ele não apenas acredita nestas coisas, mas também, apesar disso, ele continua mau.

Poucos religiosos têm sido maus o bastante para destruir toda a bondade natural do coração humano. Na mais tenebrosa noite da superstição, algumas virtudes naturais, como estrelas, têm sido visíveis no céu. O homem tem cometido todos os crimes em nome do cristianismo – e crimes que envolvem a participação de todos os outros. Aqueles que trabalharam com o chicote, e os que fizeram dos açoites um negócio legal, eram cristãos. Aqueles que se dedicavam ao negócio do tráfico negreiro eram crentes num Deus pessoal. Havia um navio negreiro chamado "Jeová". Aqueles que perseguiam os negros fugitivos com cães, seguindo a estrela do norte, rezavam fervorosamente a Deus para que fossem bem sucedidos na empreitada, e os ladrões de crianças logo antes de dormir, encomendavam suas almas aos cuidados do Altíssimo.

Como o senhor mencionou os apóstolos, deixe-me lembrar de um incidente.

O senhor lembra da história de Ananias e Safira. Os apóstolos, não possuindo nada, concebiam a idéia de que compartilhavam tudo entre si. Seus seguidores que possuíam algumas coisas deveriam vender o pouco que tinham, e dar o apurado para os financeiros teológicos. Parece que Ananias e Safira possuíam uns pedaços de terra.

Eles a venderam e depois de fazer o negócio, não estando ainda satisfeitos, concluíram em deixar um pouco – só o suficiente para evitar a fome, se os bons e piedosos banqueiros desaparecessem.

Quando Ananias pegou o dinheiro, ele foi perguntado se ele tinha mantido uma parte do pagamento. Ele negou. Foi quando Deus, o piedoso, o matou. Quando o corpo foi removido, os apóstolos procuraram sua mulher. Eles não disseram que seu marido havia sido morto. Eles armaram uma armadilha para sua vida. Nenhum deles foi nobre o suficiente para defendê-la; eles fizeram-na acreditar que seu esposo havia contado a história e que ela era livre para concordar com o que ele havia dito. Ela provavelmente concordou que eles estavam dando mais do que podiam dar e, por instinto feminino, tentou ficar com um pouco. Ela negou que tivessem ficado com parte do dinheiro da venda. Naquele momento um raio da vingança divina trespassou seu coração.

O senhor poderia fazer-me a gentileza de dizer sua opinião sobre os apóstolos, baseado nesta história? Certamente assassinato é um crime pior que desonestidade.

O senhor tem sido bom o suficiente, e de modo paternal, para me dar um aviso. O senhor diz que devo suavizar minhas palavras, e que minhas palavras teriam mais peso se não fossem tão fortes. O senhor realmente deseja que eu adicione peso às minhas palavras? O senhor realmente deseja que eu seja bem sucedido? Se o comandante de um exército manda um aviso ao comandante oponente, dizendo que ele está atirando muito alto, o senhor acredita que o general seria enganado? O senhor acha que ele mudaria sua atitude em respeito à mensagem?

Eu nego que "os peregrinos atravessaram o mar para encontrar a liberdade de adorar Deus na floresta do fim do mundo". Eles não vieram interessados em liberdade. Nunca entrou em suas mentes que outros homens tivessem a mesma liberdade de adorar Deus de acordo com o que ditavam suas consciências, que os próprios peregrinos tinham. No momento em que tivessem poder, eles estariam dispostos a açoitar, queimar e aprisionar. Eles não acreditavam em liberdade religiosa. Eles não tinham mais consciência de liberdade religiosa do que Jeová.

Eu não disse que não há espaço no mundo para heróis e mártires. Pelo contrário, eu declaro que a liberdade que nós agora possuímos foi conquistada para nós por heróis e mártires, e milhares desses mártires foram queimados, esfolados vivos, ou despedaçados, ou assassinados na igreja de Deus. O heroísmo foi demonstrado no combate às hordas da superstição religiosa.

Giordano Bruno foi um mártir. Foi um herói. Ele não acreditava em nenhum Deus, em nenhum céu, em nenhum inferno, e morreu na fogueira. Não havia nenhum Deus para agradar, nenhum céu para esperar, nenhum inferno para temer e, no entanto, ele morreu no fogo, simplesmente para preservar a brancura imaculada da sua alma.

Por centenas de anos todo homem que atacasse a igreja era um herói. A espada do cristianismo foi molhada por muitos séculos com o sangue dos mais nobres. O cristianismo estava disposto, com o chicote e com a corrente e fogo, para banir a liberdade da terra.

Nem é verdade que "a vida em família murcha sob o sorriso – meio piedoso, meio sarcástico – com o qual eu olho para a adoração em família".

Aqueles que acreditam na existência de Deus, a acreditam que devem a esse divino ser pelos poucos raios de luz de sua existência, e agradecem a Deus pelo pouco de alegrias que possuem, têm o meu inteiro respeito. Nunca exclamei uma palavra contra um espírito de gratidão. Eu compreendo o espírito de um homem que reúne sua família depois de uma tempestade, ou depois do escorbuto, ou depois de uma longa doença, e abre seu coração em agradecimento ao suposto Deus que protegeu sua vida. Compreendo o espírito do selvagem que agradece seu ídolo de pedra, ou seu fetiche de madeira. Não é a sabedoria de um ou de outro que eu respeito, mas a bondade e a gratidão, que provocam a oração.

Eu acredito na família. Acredito na família vida; e uma de minhas objeções ao cristianismo é que ele divide a família. Sobre esta questão eu falei centenas de vezes, e digo novamente, que o topo da árvore é sagrado, desde as mais finas fibras que sentem a terra macia, úmida e fria, até a mais alta flor, que floresce em direção ao sol, e que espalha seu perfume no ar. O lar onde a virtude impera com amor é como a açucena com o coração de fogo, a mais branca flor de todo este mundo.

O que o cristianismo fez, nos primeiros séculos, pelo lar? O que os conventos e monastérios, e o que a glorificação do celibato tem feito pela família? O senhor não sabe que o próprio Jesus ofereceu recompensas neste mundo e eterna felicidade num outro para aqueles que deixassem suas esposas, e filhos, e o seguissem? Que efeito tem esta promessa para a vida em família?

Na verdade a família é considerada como nada. O Cristianismo ensina que só há uma família, a família de Cristo, e que todas as outras relações é nada comparadas a isto. O cristianismo ensina o marido a desertar a esposa, a esposa a desertar o marido, filhos a desertar os pais, pelo propósito miserável e egoísta de salvar suas almas secas e pequenas.

É muito melhor para um homem amar seus semelhantes do que amar a Deus. É melhor amar a esposa e filhos do que amar Cristo. É muito melhor servir seu semelhante do que servir a um Deus – mesmo se Deus existir. A razão é palpável. Nos não podemos fazer nada por Deus. Nós podemos fazer algo por nossas esposas e filhos. Podemos dar o brilho do sol de uma vida. Podemos plantar flores no caminho dos outros.

É verdade que sou inimigo do sábado ortodoxo. É verdade que condeno que se dê um sétimo de seu trabalho para a superstição religiosa. Todo o projeto da sua religião pode ser compreendido por qualquer homem inteligente em um dia. Por que motivo ele precisaria passar um sétimo dos seus dias ouvindo tudo, mais e mais vezes?

Nada é mais triste do que o sábado. O mecânico que trabalha durante a semana no calor e na poeira, o homem trabalhador que tem dificuldades em manter sua alma no corpo, a pobre mulher que costura para o rico, pode ir para a vila como o senhor descreve. Eles ouvem o bater dos sinos, e o que é que eles ouvem na igreja da aldeia? Ouvem que Deus é o pai da espécie humana; isto é tudo? Se fosse tudo, o senhor não ouviria uma só objeção dos meus lábios. Mas isso não é tudo. Se todos os pastores dissessem: "Eliminem o mal de sua vida; seu Pai no céu conta suas lágrimas; o tempo virá em que dor e morte e lamento serão palavras desconhecidas"; eu deveria ouvir o resto. O que mais o pastor diz às pobres pessoas que ouvem o bater dos sinos? Ele diz: "O menor pecado merece castigo eterno". "A grande maioria dos homens está destinada a sofrer a ira de Deus para sempre". Ele enche o presente com medo e o futuro com fogo. Ele tem o céu para uns poucos, e o céu para a maioria." Ele descreve o pequeno caminho de grama que leva ao céu, no qual os viajantes andam juntos, e a grande avenida aberta com numerosos pés, que leva ao sofrimento eterno.

Esses sábados são imorais. Esses pastores são os verdadeiros selvagens. Eu aboliria alegremente esses sábados. Eu os transformaria com prazer num dia feriado, um dia de descanso e de paz, um dia para nos encontrarmos com a esposas e filhos, um dia para trocar idéias com os vizinhos; e eu gostaria de ver as igrejas, nas quais esses sermões acontecem, transformadas em locais de diversões. Eu gostaria de ver os ecos dos sermões – as corujas e morcegos entre os predadores, as serpentes entre fendas e cantos – expulsas pela música de Beethoven e Wagner, com alegria eu veria os catecismos em que se ensina a doutrina do tormento eterno transformados em dança alegre nos verdes das aldeias.

A musica refina. A doutrina da punição eterna degrada. A ciência civiliza. Superstição olha saudosamente para a selvageria.

O senhor não acredita que a moralidade possa ser suspensa sem a sanção da religião.

O cristianismo tem vendido, e continua a vender crime a crédito. Ele tem , e ainda ensina, que há perdão para tudo. Claro que ele ensina a moralidade. Ele diz: "Se errares, há uma maneira de escapar: acredita no Senhor Jesus Cristo e serás salvo". Insisto em dizer que esta religião não é uma contenção. É muito melhor ensinar que não há perdão, e que cada ser humano deve assumir as conseqüências dos seus atos.

O primeiro grande passo pela recuperação nacional é a aceitação universal da idéia de que não há escapatória das conseqüências de nossos atos. O jovem que veio do interior para a cidade cheia de tentações pode ser contido pelo pensamento na mãe e no pai. Esta é uma contenção natural. Ele pode ser contido tendo consciência de que uma coisa é má por causa das suas conseqüências, e que fazer o mal é sempre errado. Não posso conceber um homem mais disponível às tentações porque ele ouviu uma das minhas preleções em que eu disse que o único bem é a felicidade – que a única maneira de atingir este bem é fazer o que ele acredita que é correto. Não acredito que seu caráter moral sairá enfraquecido pela idéia de que não haverá escapatória das conseqüências de seus atos. O senhor parece acreditar que ele imediatamente se perderá – que ele seguirá as lâmpadas até os motins da paixão. O senhor acha que a bíblia consegue contê-lo? O senhor acha que conseguiria preservá-lo recomendando que lesse as vidas de Abraão, de Isaque, e de Jacó, e os outros santos polígamos do Velho Testamento? Deveria ele ler a vida de Davi e de Salomão? O senhor acha que isto o evitaria cair em tentação? Não seria melhor encher o coração desse jovem com fatos dos quais ele soubesse as conseqüências físicas? O senhor considera a ignorância como o fundamento das virtudes? Será o medo o arco que apóia a natureza moral do homem?

O senhor parece acreditar que existe perigo no conhecimento, e que os melhores químicos estão em perigo de envenenar a si mesmos.

O senhor afirma que rir da religião está a um passo de rir da moralidade, e mais um outro passo e chegamos ao vicio e devassidão.

Os judeus tinham a mesma opinião dos ensinamentos de Cristo. Eles riam da sua religião. Os cristãos têm tido a mesma opinião dos filósofos. Deixe-me dizer-lhe novamente – deixe-me dizer de uma vez por todas – que moralidade nada tem a ver com religião. Moralidade não depende do sobrenatural. A moralidade não anda com as muletas dos milagres. Moralidade apela para a experiência da humanidade. Ela não tem nada a ver com fé, nada a ver com livros sagrados. Moralidade depende de fatos, é algo que pode ser visto, que pode ser sabido, o produto do qual pode ser estimado. Ela não necessita de padres, cerimônias, números. Ela acredita na liberdade da mente humana. Ela pede investigação. Ela se fundamenta na verdade. Ela é inimiga de toda religião, porque ela tem a ver com este mundo, e apenas com este.

Minha intenção é eliminar o medo do mundo. O medo é o carcereiro da mente. O cristianismo, a superstição – ou seja, o sobrenatural – faz de cada mente uma prisão e cada alma um condenado. Sob o governo de uma divindade pessoal, conseqüências dependem da natureza de punições e recompensas. Sob o governo da natureza, aquilo que o senhor chama de punição e recompensa são apenas conseqüências. A natureza não pune. A natureza não recompensa. A natureza não tem propósitos. Quando a tempestade vem, eu não penso: "Isto foi trazido por um tirano". Quando o sol brilha, eu não digo:"Isto foi trazido por um amigo". Liberdade significa liberdade de desígnios pessoais. Isto não significa escapar de relações que temos com outros fatos na natureza. Eu acredito nas restrições causadas pelos efeitos da liberdade. A temperança anda de mãos dadas com a liberdade. Remover uma corrente do corpo adiciona uma maior responsabilidade sobre a alma. A liberdade disse ao homem: "Tu te feres ou proteges. Tu melhoras ou pioras teu bem-estar. É uma questão de inteligência. Não é necessário te curvares diante de um tirano ou a uma infinita bondade. Tu és responsável por ti mesmo, e por aqueles que feres, e a ninguém mais."

Eu elimino o medo de mim mesmo acreditando que não há nenhuma força além de mim que me acuda nas dificuldades, e acreditando, como acredito, que não há nenhuma força além ou abaixo de mim que me prejudique nas dificuldades. Não acredito que sou o fruto do acidente, ou que eu possa ser feito em pedaços pela força cega da natureza. Não há acidentes, não há intenções. O que tem de acontecer acontece. O presente é o filho necessário de todo o passado, e é pai do futuro.

Será que ajuda tirar o medo do homem ensiná-lo que há um Deus que o ajuda nas dificuldades? Qual evidência se tem para fundamentar esta crença? Quando algum Deus ouviu a prece de um homem? A água cai, o frio congela, a enchente destrói, o fogo queima, os aguaceiros caem – quando foi a prece do homem atendida?

Será que o mundo religioso de hoje está desejoso de testar a eficiência da reza? Só há uns anos atrás ela foi testada nos EUA. Os cristãos do cristianismo, de comum acordo, caíram de joelhos e pediram a Deus para salvar a vida de um homem. O senhor sabe o resultado. O senhor sabe tanto quanto eu que as forcas da natureza produzem o bem e o mal igualmente. O senhor sabe que as forças naturais destroem os bons e os maus igualmente. O senhor sabe que o raio sente o mesmo prazer em fulminar o homem honesto que sente, ou sentiria um assassino com a faca, atacando o seio da inocência.

Será que Deus ouviu as orações dos escravos? Ouviu ele as orações dos filósofos e patriotas aprisionados? Ouviu as rezas dos mártires, ou permitiu que canalhas, que se diziam seus seguidores, amontoassem lenha para destruir o glorioso corpo dos mártires? Terá ele permitido que as chamas destruíssem aqueles cujos corações estavam nele? Por que um homem dependeria da bondade de Deus que criou milhões para sofrer a dor eterna? A fé que o senhor diz ser sagrada, -- "sagrada como o mais delicado sentimento de amor humano" é a fé de que quase todos os seus semelhantes serão perdidos. Será que o homem honesto deverá abster-se de denunciar esta fé porque aqueles que a professam dizem que seus sentimentos são feridos? O senhor me diz: "Existe um inferno. Um homem dizendo o que o senhor diz vai para o inferno quando morrer". Eu respondo: "Não há inferno. A bíblia que ensina isto não é verdadeira." E o senhor diz: "Como pode o senhor ferir meus sentimentos?"

O senhor parece acreditar que alguém que ataca a religião de seus pais está desrespeitando seu pai e sua mãe.

Os primeiros cristãos estavam também desrespeitando seus pais e mães? Os pagãos que abraçaram o cristianismo eram filhos e filhas sem coração? O que diria o senhor dos apóstolos? Eles também não desprezaram a religião dos pais e mães? Eles não se juntaram àquele que denunciou seu povo como "geração de víboras?" Eles não foram atrás daquele que ofereceu uma recompensa para os que deixassem os pais e mães? Claro que bastaria você voltar algumas gerações na sua família para chegar até os Fields que não eram presbiterianos. Logo depois desta geração surgem os presbiterianos. Eram eles baixos demais, ou infames demais para desprezar a religião do pai e da mãe? Todos os protestantes do tempo de Lutero eram desrespeitosos pela religião dos pais. De acordo com sua idéia, o progresso é um filho pródigo. Se alguém tem de ser inclinado à religião do pai e da mãe, e se o pai é por acaso, presbiteriano e a mãe católica, o que ele fará? O senhor não vê que sua doutrina só dá liberdade intelectual para os fundadores?

Se por cristianismo o senhor considera bondade, espírito de perdão, e a benevolência da qual os cristãos afirmam fazer parte, e a principal parte desta religião peculiar, então eu não concordo com o senhor quando o senhor diz que "Cristo é o cristianismo, e este se sustenta e cai com ele". O senhor estreitou desnecessariamente as fundações da sua religião. Se fosse estabelecido, sem dúvida, que Cristo nunca existiu, todos os valores do cristianismo permaneceriam, e permaneceriam intactos. Suponha que descobríssemos que Euclides é um mito. A ciência conhecida como a matemática não sofreria alterações. Não importa quem pintou ou esculpiu os grandes quadros ou imagens da história, desde que os tenhamos. Quando alguém que estabeleceu uma verdade desaparece da terra, a verdade fica. A verdade morre apenas quando esquecida pela mente humana. Justiça, amor, misericórdia, perdão, honra, todas as virtudes que vicejam no coração humano, eram conhecidos e praticados muitas eras antes do nascimento de Cristo.

O senhor insiste que a religião não deixa o homem em "abjeto terror" – não o deixa "na assombrosa escuridão de seu destino".

É possível saber quem será salvo? Pode ler os nomes mencionados nos decretos do Infinito? É possível dizer quem será eternamente perdido? Pode a imaginação conceber um destino pior do que aquele que terão a maioria das pessoas? Como cada ser humano não consideraria "um abjeto terror" sua doutrina? Quantas mulheres sinceras e bondosas estarão hoje em asilos temendo que tenham cometido "um pecado imperdoável" – um crime contra o qual seu Deus tenha decretado o tormento eterno, e mesmo assim tenha falhado em descrever a ofensa? Pode a tirania ir além disso – decretando a pena da tortura eterna pela violação de uma lei não escrita, não conhecida, mas mantida no segredo da infinita escuridão? Como deveria ser bom não saber nada sobre isso, e não acreditar em nada disso! Como seria melhor não ter nenhum Deus!

Primeiro o senhor vê uma "inteligência infinita ordenando nossas pequenas vidas, de tal modo que até as dificuldades que temos, os que chamam os mais finos elementos do caráter, conduz a uma futura felicidade". Esta é uma velha explicação – tão boa quanto qualquer outra. A idéia é a de que este pequeno mundo é uma escola, na qual o homem se torna educado através do sofrimento, -- os músculos do caráter sendo treinado através das distensões dos acidentes. Se é necessário viver esta vida para desenvolver o caráter, para se tornar digno de um mundo melhor, como o senhor explica o fato de que bilhões de seres humanos tenham morrido na infância, perdendo a oportunidade de uma educação e desenvolvimento? O que o senhor acharia de um professor que matasse a maioria dos alunos durante o primeiro dia de aulas, antes sequer que eles tivessem a oportunidade de conhecer a letra A?

O senhor insiste que "há uma força por trás da natureza fazendo o bem."

Se a natureza é infinita, como pode existir uma força fora dela? Se o senhor quer dizer "uma força fazendo o bem para que o homem, ao ser civilizado, ao se tornar inteligente, não só tira vantagens das forças da natureza em seu beneficio, mas também percebe cada vez mais claro que se ele quer ser feliz, ele deve viver em harmonia com os fatores circunjacentes, em harmonia com as relações que ele mantém com outras pessoas e coisas"; se é isto o que quer dizer, então existe "uma força fazendo o bem". Mas se o senhor quer dizer que há algo de sobrenatural por trás da natureza que dirige as coisas, então eu insisto que não há nenhuma possibilidade de haver evidências dessa força.

A história da humanidade mostra que as nações crescem e decaem. Há um limite para a vida de um povo; de tal modo que pode ser dito de toda nação morta, que há um período em que elas perdem as fundações da prosperidade, quando a combinação de inteligência e virtude do povo constituíam a força de trabalho dos honestos, e que vem uma época em que esta nação torna-se esbanjadora, e deixa de acumular, quando vivia do trabalho dos jovens, e passam de poder e glória para fraqueza de velhos tempos, e finalmente caminha trôpega para a tumba.

A inteligência do homem, guiada por um senso de responsabilidade é a única força que faz a justiça.

O senhor diz que estou levando adiante uma "guerra perdida" e o senhor dá uma explicação afirmando que a religião cristã nasceu dois mil anos antes de mim, e que ela ainda viverá dois mil anos depois da minha morte.

Isto é um argumento? Pode isto convencer até o senhor mesmo? Não poderia Caifás, o alto sacerdote, ter dito o mesmo e Cristo? Não poderia ele dizer: "A religião de Jeová começou dois mil anos antes que o senhor nasceu, e ainda viverá dois mil anos após sua morte"? Não poderia um seguidor de Buda fazer a mesma observação ilógica a um missionário de Andover? Não poderia ele dizer: "O senhor está travando uma batalha perdida. A religião de Buda começou dois mil anos antes do seu nascimento, e milhares de pessoas ainda adoram o grande santuário de Buda".

O senhor insiste em dizer que apenas o que é certo pode sobreviver por dois mil anos? E que a Igreja Católica sobrevive intacta enquanto que reinos e nações perecem? O senhor está se referindo à sobrevivência dos mais aptos?

Não é esta mesma religião que está sobrevivendo aquela que existia na idade média? É esta a mesma religião cristã que fundou a inquisição e inventou os esmagadores de polegares? O senhor não vê nenhuma diferença entre a religião de Calvino e Jonathan Erwards e o cristianismo de hoje? O senhor acha mesmo que é o mesmo cristianismo que vive por todos esses anos? O senhor notou alguma mudança nessas últimas gerações? O senhor se lembra quando cientistas tentaram provar uma teoria citando uma passagem da bíblia, e o senhor sabia que os crentes na bíblia estavam ansiosos em provar que a verdade dos fatos que os cientistas tentavam provar? O senhor sabe que os modelos mudaram? Outras coisas não são medidas pela bíblia, mas a bíblia deve ser submetida a outros testes. Ela não é mais nosso padrão. Ela deve ser pesada, e está ficando cada vez mais leve nos nossos dias. O senhor sabe que apenas há uns anos atrás "o alegre anúncio das boas novas" consistia em principalmente na descrição do inferno? O senhor sabia que quase todo pastor inteligente de hoje se envergonha de pregar sobre isto, ou ler sobre isto, ou falar sobre isto? Houve alguma mudança? O senhor sabe que apenas alguns pastores hoje acreditam na "inspiração plena" da bíblia, e que milhares de seguidores hoje são ensinados que a criação, de acordo com o Gênesis é um erro, e que nunca houve um dilúvio, e que os erros do velho testamento são considerados apenas como simplesmente mitos ou enganos?

Até quando o que o senhor chama de cristianismo irá suportar, se ele mudar tão rapidamente no próximo século como mudou no século passado? O que sobrará do sobrenatural?

Não parece possível que pessoas conscientes possam, por muitos anos, acreditar que um ser de infinita sabedoria possa ser o autor do Velho Testamento, que um ser de infinita pureza e bondade apóie a poligamia, a escravidão, e que ele ordenou seu povo escolhido a massacrar seus vizinhos, e que ele ordenou maridos e pais a perseguir esposas e filhas até a morte, por questão de opinião.

Não parece estar dentro da probabilidade da crença que Jeová, o cruel, o ciumento, o ignorante, o vingativo, seja o criador e mantenedor do universo.

Parece provável que a infinita bondade criaria um mundo no qual a vida alimenta a vida, na qual tudo devora e é devorado? Pode existir um fato mais triste do que este: o inocente não estar certo da proteção?

É impossível para mim, acreditar na eternidade da punição. Se esta doutrina é verdadeira, Jeová é louco.

Dia após dia existe lamento entre homens e mulheres, patriotas e mães, moças cujo único crime é que a palavra liberdade floresce nos seus puros e belos lábios, carregados por bestas através da imensidão melancólica das neves siberianas. Esses homens, essas mulheres, essas filhas, vão para o exílio e a escravidão para uma terra na qual a esperança é a morte. Pode parecer possível para o senhor que um "Pai Infinito" veja isto e se sente impassível como um deus de pedra?

E, no entanto, de acordo com sua crença presbiteriana, de acordo com seu livro inspirado, de acordo com seu Cristo, existe um outro processo, no qual os mais nobres, os melhores, nos quais o senhor encontrará os maravilhosos espíritos do mundo, os amantes da espécie humana, os professores dos seus semelhantes, os grandes soldados que lutam pela justiça; este processo de muitos milhões, nos quais o senhor encontrará os mais generosos e os mais bondosos dos filhos e filhas do homem, estão viajando para a Sibéria de Deus, a terra do exílio eterno, na qual a agonia se torna imortal.

Como o senhor pode, como pode um homem de mente e coração, acreditar nesta mentira infinita?

Não há espaço para uma filosofia melhor e mais alta? Afinal, não é possível que descubramos que tudo foi necessariamente produzido, que todas as religiões e superstições todos os erros e todos os crimes, foram todos necessários? Não é possível que depois desta percepção poderá advir, não apenas amor e piedade pelos outros, mas absoluta justificação pelo indivíduo? Não podemos achar que cada alma, como Mazeppa, sendo açoitado pelo cavalo da paixão, como Prometeus nas rochas do destino?

O senhor me pede para considerar a "segunda sóbria idéia". Eu lhe peço para considerar a primeira, e se eu conseguir, o senhor jogará fora sua crença presbiteriana; o senhor instantaneamente perceberá que aquele que cometer o menor dos crimes não mais merecerá a danação eterna, assim como aquele que fizer o menor dos benefícios não merecerá a recompensa eterna; o senhor estará convencido de que um Deus infinito que criou bilhões de criaturas sabendo que eles sofrerão durante todos os incontáveis anos é um demônio infinito; o senhor ficará satisfeito que a bíblia, com sua filosofia e suas tolices, com sua bondade e sua crueldade, é apenas uma obra humana, e que o sobrenatural não existe e não pode existir.

Por sua personalidade, eu tenho os maiores considerações e respeito, e eu lhe peço para não poluir as almas das crianças, para não esbofetear a face das mães, pregando uma crença que poderia ser proferida num hospício. Não faça dum berço um objeto tão terrível como um esquife. Pregue, eu lhe peço, o evangelho da Hospitalidade Intelectual – a liberdade de pensamento e da fala. Tire o medo dos corações gentis. Tenha misericórdia dos seus semelhantes. Não leve para o hospício as mães em cuja face as lágrimas estão caindo sobre os rostos pálidos dos que morreram na descrença. Tenha piedade deste mundo de erros, sofrimento de choro. Não proclame como se fossem "as alegrias das boas novas" que uma Aranha Infinita está tecendo suas teias para capturar as almas dos homens.

 

Robert G. Ingersoll