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1ª Carta do Reverendo Field
1ª Carta do Reverendo Field

Carta aberta ao Sr. Robert G. Ingersoll -1887

 

(DR. HENRY FIELDS)

 

Caro senhor: fico feliz em tê-lo conhecido, apesar de alguns dos meus colegas o considerarem um monstro, por causa de sua descrença. Nunca esquecerei aquela noite que eu passei na sua casa em Washington; o que eu vou dizer pode não conseguir convencê-lo, mas sei que o senhor considerará que eu não sou indigno de merecer sua cortesia e confiança.

Sua conversa, na ocasião e em outras vezes, realmente me interessou. Eu reconheci logo de início sua força de convencimento em grandes audiências, na sua ironia e talento dramático - personalizando características e imitando tons de voz e expressões -- e sua impressionante utilização da língua, que mesmo nas conversações familiares deixa clara a eloqüência. Tudo isso eu considerei como grande estímulo intelectual. Nessas ocasiões fui principalmente um ouvinte; mas quando conversamos livremente sobre religião, eu classifiquei a descrença como totalmente irracional. Entretanto, não houve qualquer ofensa dada ou recebida, e nos despedimos, acredito eu, com um sentimento de mútuo respeito.

Indo mais além, digo que encontramos muitos pontos de convergência. Não hesito em afirmar que há muitos pontos em que concordo com o senhor, em que eu amo o que o senhor ama, e odeio o que o senhor odeia. Os ódios de um homem não são a parte menos importante dele;
Eles estão entre os principais indicativos do seu caráter. O senhor ama a verdade e odeia a mentira e hipocrisia - todas as artes menores e embustes do mundo, com os quais os homens se apresentam aos outros diferentemente do que são - assim como o orgulho e arrogância, com os quais eles fingem superioridade em relação a seus semelhantes. Sobretudo o senhor abomina toda sorte de opressão e injustiça. Nada lhe causa maior indignação do que "a desumanidade de um homem sobre outro", e o senhor denomina "maldição não alta, mas profunda", sobre toda espécie de tiranos e opressores que o senhor gostaria de varrer da face da terra. Na verdade o senhor não odeia a opressão mais do que eu, nem ama mais a liberdade. Nem admitirei que o senhor tenha maior desejo pela liberdade intelectual, para atingir o que o senhor considera como a última e maior emancipação da humanidade.

Nem diria que o senhor tenha o maior horror às superstições. Na verdade devo dizer que o senhor não pode ter ódio tão grande, pela simples razão de o senhor não ter visto muitas delas; o senhor ainda não visitou as margens do Ganges, nem viu os hindus apinhando-se aos milhares e se jogando loucamente nas suas águas, levando consigo até as cinzas dos seus mortos para jogá-las no rio. Parece que foi ontem que eu me encontrava montado num elefante, olhando as cenas horríveis da degradação humana. Estas superstições superam até os fundamentos da moralidade. No lugar do senso comum do certo e errado, que está escrito no coração e na consciência dos homens, ela coloca o padrão artificial, na qual a ordem das coisas é pervertida: o certo é feito errado, e o errado é feito certo. Ela faz uma virtude do que não é virtude, e um crime do que não é um crime. A religião consiste num grupo de observações que não têm relações com a bondade natural, mas que em vez disso a exclui, sendo um substituto dela. Penitências e peregrinações tomam o lugar da justiça e misericórdia, benevolência e caridade. Tal religião, longe de ser purificadora, é uma grande corruptora da moral; então, não é nenhuma extravagância dizer que os hindus, que são uma raça de boa índole, poderiam ser virtuosos se não fossem tão religiosos. Mas essa colossal superstição pesa sobre sua existência, esmagando sua virtude natural. Essa religião é uma monstruosa maldição.

Espero que esta linguagem seja forte o suficiente para satisfazer até seu próprio ódio à superstição. O senhor não pode detestar isto mais do que eu. Até aqui nós concordamos completamente. Mas infelizmente o senhor não limita sua cruzada às religiões asiáticas, mas mantém o mesmo estilo de argumentação contra as religiões da Europa e América, e na verdade contra qualquer crença e adoração de qualquer país e lugar. Neste aspecto o senhor não faz qualquer distinção: o senhor jogaria fora todas juntas de uma vez; igreja e catedral cairiam com o templo e o pagode, assim como as manifestações de credulidade e provas de fraqueza intelectual e ingenuidade humana. Ainda sob a impressão daquela memorável noite na sua casa, li de algumas de suas preleções públicas, e experimentei um estranho sentimento de repulsa. Quase não pude acreditar nos meus olhos quando eu li, de tão chocado. Coisas que considero sagradas, o senhor não apenas rejeitava com descrença, mas ainda ironizava com desprezo. Suas palavras eram cheias de amargura, tão diferentes das palavras que eu ouvira dos seus lábios, que não pude conciliar as duas pessoas, como se Robert Ingersoll fosse duas pessoas em uma. Duas pessoas não só distintas, mas contrárias entre si - uma gentil e de boa índole, a outra hostil e guerreira. Entre as duas tenho uma simpatia pela primeira. Não tenho nenhuma discordância com o cavalheiro pacífico e gentil, cujo espírito faz o sol brilhar na sua casa; mas foi o outro homem que irrompeu na arena tal qual um gladiador, desafiante e beligerante, que despertou meu antagonismo. No entanto eu não pretendo me colocar contra ele; mas se ele sentar e ouvir pacientemente, e responder naquele tom de voz suave que ele sabe muito bem como usar, nós podemos ter uma conversa calma, que certamente não lhe trará qualquer mal, enquanto aplacará minha mente atormentada.

Então, quais são as bases desta religião que o senhor despreza? Na fundação de qualquer forma de religião, fé ou adoração, está a idéia de Deus. Aqui o senhor toma sua posição; o senhor não acredita em Deus. Claro que o senhor não nega absolutamente a existência de uma Forca Criativa; isto seria assumir um conhecimento que nenhum ser humano possui. Como é pequena a distância que podemos ver entre nós! A vela de nossa inteligência lança seus raios, além da qual, o círculo de luz é envolvido pela escuridão universal. Além disso ninguém insiste mais que o senhor sobre a insignificância do homem, de tal modo a colocar qualquer pastor embaraçado. Lembro de tê-lo visto falar das miríades de criaturas que vivem nas plantas, as quais o senhor cita para mostrar a insignificância humana, um inseto tão pequeno que nem dá para ser visto à vista desarmada, cujo mundo é uma folha, e cuja vida dura não mais que um dia! Claro, uma criatura que só pode ser vista com um microscópio, não pode saber que o criador não existe!

Isto, eu devo fazer justiça, o senhor não afirmou. Tudo o que diz é que, se não há nenhum conhecimento num lado, também não haverá no outro; é só uma questão de probabilidade; e que, julgando pelas evidências que seus sentidos captam, e seus entendimentos, o senhor não acredita que haja um Deus. Se isto é uma conclusão racional ou não, isto é ao menos um estado inteligível da mente.

Agora eu não vou argumentar contra o que os católicos chamam de "ignorância invencível" - uma incapacidade que vem do temperamento - porque eu presumo que a crença em Deus, como a crença nas coisas espirituais, vem à mente através de um tipo de intuição. Há naturezas tão concatenadas que são sensíveis a influências que não atingem outros. O senhor pode achar que se trata de mera rapsódia poética, quando Shelley escreve:

"A sombra terrível de alguma força invisível
flutua, apesar de invisível, entre nós."

Mas há naturezas que não são poéticas ou sonhadoras, mas em vez disso, sempre simples e puras, que em certos momentos de exaltação espiritual, são quase conscientes de uma Presença que não é deste mundo. Mas isto, que é uma questão de experiência, não tem peso algum sobre aqueles que não têm essas experiências. Por enquanto, entretanto, não vou ser desviado para o lado do mero sentimento, mas olhar para a questão na luz fria da razão, apenas.

A idéia de Deus é, realmente, a maior e mais terrível que pode ser experimentada pela mente humana. Sua grandeza nos supera, de tal modo que nos parece impossível que tal Ser possa existir. Mas se é difícil conceber o infinito, é ainda mais difícil encontrar explanação inteligível da presente ordem das coisas sem admitir a existência de um Criador inteligente, ou Mantenedor de tudo. Galileu, quando perscrutou o céu com o telescópio, reconheceu o dedo de Deus em cada movimento dos corpos celestes. Napoleão que, quando os serventes franceses, na viagem ao Egito, questionaram a existência de Deus, desprezou qualquer resposta outra que não fosse apontar para o céu e perguntar: "Quem fez tudo isso?" Esta é a primeira questão, e também a derradeira. Quanto mais longe caminharmos, mais somos levados a uma conclusão. Ninguém mais estudou a natureza com maior desejo de saber a verdade do que Agassiz, e no entanto, por mais que ele explorasse, mais surpreso ficava ao se encontrar cara a cara com as evidências da MENTE.

O senhor afirma que isso é um "grande mistério" querendo dizer que é algo sobre o qual ninguém tem como saber? Claro que isso é "um mistério". Mas o senhor pensa estar se livrando do mistério negando a existência Divina? O senhor apenas troca um mistério pelo outro. O primeiro de todos os mistérios não é que Deus exista, mas que nós existimos. Aqui estamos. Como chegamos até aqui? Nós nos voltamos para nossos antepassados; mas isto não diminui a dificuldade; isto apenas a empurra mais para longe. Quando começamos a subir os degraus das gerações passadas, o senhor descobrirá que existe uma escada de Jacó, na qual o senhor sobe mais e mais, até chegar à presença do Altíssimo.

Mas mesmo que saibamos que há um Deus, o que podemos saber sobre Seu caráter? O senhor afirma: "Deus é tudo aquilo o que concebemos que Ele seja". Nós traçamos uma imagem de Divindade, da nossa própria consciência - é apenas um reflexo da nossa própria personalidade, refletida no céu como a imagem vista nos Alpes em certas situações atmosféricas - então nos decaímos e adoramos aquilo que criamos, não propriamente com nossas mãos, mas com nossas mentes. Isto pode ser verdadeiro com relação aos deuses de certas mitologias, mas não ao Deus da natureza, que é tão inflexível como a própria natureza. O senhor pode afirmar que as leis da natureza são as leis que nós imaginamos que elas sejam. Mas não podemos ir muito além se descobrirmos que, em vez de ser condescendente com nossa vontade, elas são rígidas e inexoráveis, e nós nos esmagamos contra elas até a destruição. Então Deus não se dobra ao pensamento humano, nem à vontade humana. Quanto mais O estudamos, mais percebemos que Ele não é aquilo que imaginávamos que fosse; que ele é muito maior do que qualquer imagem Sua que pudermos construir.

Mas, depois de tudo, o senhor se regozija com a idéia de que a concepção de um Ser Supremo é uma mera idéia abstrata, de nenhuma importância prática, sem nenhuma influência sobre a vida humana. Eu respondo que é de inestimável importância. Deixe ir embora a idéia de Deus, e o senhor terá deixado ir as maiores restrições morais. Não há nenhum governante acima da humanidade; o homem é a lei para si mesmo - uma lei que é impotente para produzir ordem, para manter a sociedade unida, como é o homem impotente para, com suas pequeninas mãos, alterar o curso dos astros no céu.

Eu sei como o senhor argumenta contra a Divina existência através da ordem moral no mundo. O argumento leva em conta grande imaginação, e pode ser usado com tremendo efeito. O senhor pinta com cores fortes a injustiça que prevalece nas relações do homem com seus semelhantes - as injustiças da sociedade, a superabundância dos ricos, e a miséria do pobre; o senhor coloca exemplos ilustrativos dos vícios e crimes que vicejam nas grandes capitais do mundo, que são os centros da civilização; e quando o senhor cativou sua audiência com a maior força, o senhor então pergunta: "Como podemos conceber que haja um Deus justo no céu, que olha para a terra e vê toda essa horrível confusão e nem levanta sua mão para proteger o inocente e punir o criminoso?" A isto eu respondo com uma só resposta: Isto o convence? Não estou afirmando que o senhor não é sincero. Mas um orador é levado muitas vezes pela própria eloqüência, e exclama coisas mais fortemente do que ele faria em situações mais calmas. Então eu me aventuro a perguntar: com toda sua tendência ao ceticismo, o senhor realmente acredita que não há qualquer governo no mundo - nenhuma Força dentro da natureza "fazendo justiça"? Não há nenhuma retribuição na história? Quando Lincoln chegou ao campo de Gettysburg, antes preenchido de sangue, e vendo a carnificina que acontecera naquele dia, e aceitou isso como uma punição dos pecados da nossa nação, foi isso uma mera representação teatral quando ele ergueu as mãos para o céu e exclamou: "Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, Senhor Deus Todo Poderoso!"?

Aqui, assim como geralmente o senhor fala sobre existência de Deus, o senhor cuidadosamente evita afirmações positivas: o senhor nem nega nem afirma. O senhor estaria preparado para qualquer uma alternativa. No seu estilo alegre, se o senhor se encontrasse futuramente numa situação nova e inesperada, o senhor aceitaria e faria todo o possível, e estaria 'preparado para assumir qualquer atividade remunerada'.

Depois de espalhar, para sua própria satisfação, que não há Deus, o senhor se dedica à mesma tática fácil em descartar outra crença que é a fundação de toda religião - a imortalidade da alma. Com um ar de modéstia e mansidão, que é capaz de levar uma platéia ao delírio, o senhor confessa sua ignorância do que outras pessoas, talvez saibam melhor que o senhor, quando diz: "Este mundo é tudo o que conheço, pelo que me lembre". Isto é dito muito ironicamente, e muitos poderão supor que pode conter um argumento; mas o senhor realmente quer dizer que não sabe nada, desde que não lembre, ou que tenha visto com seus olhos? Provavelmente o senhor nunca viu seus avós; mas o senhor tem mais dúvida de que eles existiram do que o seu pai e sua mãe, que o senhor viu?

Aqui, como quando o senhor fala da existência de Deus o senhor, cuidadosamente, evita afirmações positivas: o senhor nem afirma nem nega. O senhor estaria pronto para qualquer verdade que exista. No seu estilo alegre se o senhor se encontrasse no futuro, numa situação não esperada, o senhor aceitará, e fará o melhor de si, como faz o homem que assume uma atividade remunerada.

Mas enquanto descreve esta fantasia alegre, o senhor claramente descreve a esperança numa vida futura como um sonho de mendigos - a ilusão de quem, tropeçando ao longo da estrada da vida, caído num canto da estrada, descalço e esgotado, com frio e faminto, adormece, e sonha estar num local onde existe riqueza e abundância. Pobre criatura! Deixemos que ele sonhe; isto o ajuda a aliviar sua miséria, e lhe dará um pouco de coragem para enfrentar a dureza realidade da vida. Mas isso é somente um sonho, que se dissipa no ar, flutua e desaparece. Este exemplo eu não tirei do senhor, mas simplesmente o coloquei o que (como outras expressões citadas acima, e outras sentenças semelhantes) pode descrever, não de maneira desonesta, o que o senhor pensa. Sua maneira de tratar a questão não vem ao caso. O senhor não trata do assunto de modo sério, mas superficialmente e irreverente, como se tudo fosse uma questão de conjecturas e fantasia, e não digna de séria consideração.

Agora, nunca ocorreu ao senhor que existe algo de muito cruel no tratamento que o senhor dá à crença de seus semelhantes, a aqueles nos quais a esperança numa outra vida está o alívio de toda a escuridão da presente vida? Para muitos deles a vida é um fardo que têm de carregar, e eles precisam de toda a ajuda para carregá-lo, ajuda essa encontrada na razão, na filosofia, ou na religião. Mas que apoio o senhor dá com sua crença oca? O senhor é um homem de coração bondoso, que desperta simpatias. Aqueles que o conhecem bem, e que o amam, dizem que o senhor não pode suportar o sofrimento nem de animais. Que sua sensibilidade é tamanha que o senhor não encontra prazeres nem nos esportes como pesca e caça; matar uma ave o faria se sentir um assassino. Se o senhor vê um homem em dificuldades, sua primeira reação é ajudar. O senhor não pode ver uma criança chorar sem se aproximar, tomá-la em seus braços e tentar fazê-la sorrir novamente. E, no entanto, com toda sua sensibilidade, o senhor tem a mais impiedosa e desalmada crença do mundo - a crença de que não existe a menor fagulha de misericórdia e esperança. Uma mãe acaba de perder seu único filho. Ela vai ao túmulo e se joga sobre ele, numa cena pungente. Um pensamento a mantém sem cair no desespero: o pensamento de que, depois desta vida, existe uma outra em que ela tenha a oportunidade de segurar novamente seu filho nos braços. O que o senhor diria a essa mãe? O senhor se calaria, e seu silêncio seria uma sentença de morte para a esperança dela. Naquele túmulo o senhor não poderia falar; porque se o senhor abrisse os lábios, diria àquela mulher o que o senhor realmente acredita, ou seja, que o filho não mais existe, e que ela jamais veria sua face novamente. Ou seja, com seu calcanhar de ferro o senhor esmagaria e despedaçaria a última esperança de um coração partido.

Quando essas tristezas chegam para o senhor, o senhor os sente tão claramente como qualquer homem. Com seus fortes vínculos com os parentes, não se podem supor que aconteçam sem deixar um imenso vazio no coração, e sua dor seria tão eloqüente quanto em esperança. Nenhuma palavra é mais triste do que esta, proferida sobre um ataúde de alguém que se amava: "A vida não é nada mais que um vale estreito, entre picos altos e áridos de duas eternidades." Esta é uma condenação ao aniquilamento que lança calafrios no mais duro dos corações. Mesmo o senhor deve invejar a fé que, quando olha para cima, vê aqueles picos de duas eternidades, não como frios e áridos, mas aquecidos pelos raios do sol, que dão esperanças de um futuro melhor.

Parece que ouvi o senhor dizer "Então, que seja assim! Se for dessa maneira, eu acreditarei!" Nenhum outro reconhece tanto o vazio da vida. Não esqueço o tom como o senhor falou: "A vida é muito triste para mim; ela é lamentável; não vale a pena!" É verdade. Com sua crença, ou desejo de crer, não vale a pena; e isto é tudo, ou haveria a questão de se a vida vale a pena ser vivida. Em nome da humanidade, vamos nos agarrar a tudo o que nos resta e que nos dê um raio de esperança dentro desta escuridão, e iluminar seu impenetrável brilho.

Percebo que o senhor freqüentemente entretém sua platéia e a si mesmo caricaturando certas doutrinas da religião cristã. A 'Expiação' como o senhor descreve, é simplesmente 'punição ao homem errado' - deixar o criminoso escapar e castigar o inocente. Seria um ataque à justiça permitir a injustiça. Mas não haveria um outro lado desta questão? Não seria a idéia do sacrifício uma coisa nobre para o homem, que enobrece o seu caráter? O senhor vê uma mulher descuidando de si para se dedicar a seu filho, esquecendo dos confortos, agüentando as maiores dificuldades, até que, por fim, desgastada de trabalho e privações ela dobra os braços no seu peito. Não podemos dizer com certeza que ela deu sua vida pelo filho? A história é cheia de sacrifícios, e esta é a melhor parte da história. Não vou falar dos 'nobres exércitos de mártires', mas de heróis que morreram por sua pátria e pela liberdade - não é o elemento de devoção pelo bem dos outros que dá tanta glória a seus nomes imortais? Como então achar que é uma coisa sem razão quando o Criador da humanidade dá Sua vida em beneficio da vida no mundo?

E então o senhor vê objeto de caricatura a doutrina da "regeneração". Mas o que é regeneração, se não uma mudança no caráter mostrada na vida? O que há de absurdo nisso? O senhor nunca viu um bêbado recuperado? Nunca viu um homem de vida impura que, depois de trilhar o caminho do mal, tal qual o filho pródigo, 'voltou para si mesmo' - ou seja, acordou para a vergonha, deixou-a, voltou para o caminho da pureza, e reconquistou, por fim, a nobre humanidade? Provavelmente o senhor admitiria isso, mas diria que a mudança foi resultado de uma reflexão, e da própria vontade e força do homem. A doutrina da regeneração apenas transfere ao homem a força de Deus. Nós acreditamos que o homem é fraco, mas que Deus é poderoso; e que quando o homem tenta se erguer, um braço se estende em direção a ele e o levanta numa altura que ele não conseguiria atingir sozinho. Por vezes alguém que levou a pior das vidas, depois de cair em desespero e remorso, como se estivesse experimentando as agonias do inferno, dá a volta e toma outro rumo: ele se torna uma nova criatura, o qual seus amigos mal reconhecem quando ele se veste decentemente e com sua mente certa. A diferença é da escuridão para a claridade, da morte para a vida; e quem tiver visto um exemplo desses nunca dirá que a linguagem é inadequada para dizer que aquele homem "nasceu novamente".

Se o senhor achar que eu passei levemente sobre essas doutrinas, não deixando claros os significados que elas contêm, eu admito. Não estou escrevendo um ensaio de teologia, mas apenas mostraria, de passagem, pelos seus métodos favoritos de ilustração, que os princípios envolvidos são os mesmos com os quais o senhor se familiariza no dia-a-dia.

Mas a doutrina que tira do senhor a mais amarga animosidade é aquela da retribuição futura. A idéia de uma vida futura, atingindo um futuro desconhecido, o senhor contemplaria com compostura se não fosse a sombra negra pairando sobre ela. Mas para viver só para sofrer; para viver pedindo para morrer; para 'desejar a morte, e não poder encontrá-la' - é uma idéia que desperta a raiva de alguém que vê a morte com a calma de quem a considera apenas um sono eterno. A doutrina não perde nenhum dos seus terrores quando passa por suas mãos; porque esta é uma das razões pelas quais o senhor trabalha com os sentimentos dos seus ouvintes. O senhor a descreve como a crença mais horrível que já penetrou na mente humana: que o criador traria à vida os seres, para depois destruí-los! Isto faria dele o mais assustador tirano que jamais existiu no universo - um selvagem destruindo seus próprios filhos. Eu tremo quando lembro a energia imensa na sua voz quando o senhor disse: "Este Deus eu odeio com toda a força do meu ser"!

Mas calma, calma, senhor! Vamos deixar que essa onda de fúria passe, antes que retomemos nossa conversa! Quando o estiver um pouco mais tranqüilo eu, modestamente, irei sugerir que o senhor está combatendo algo que é mero fruto de sua imaginação. Nunca ouvi de nenhum professor cristão que "O Criador trouxe ao mundo seres para destruí-los". Não seria melhor o senhor usar de mais moderação e usar afirmações claras, especialmente quando com todas as modificações, o sujeito é alguém que desperta sentimentos dos mais solenes e profundos?

Agora não entrarei na discussão desta doutrina. Não citarei um único texto. Apenas lhe perguntarei se não seria uma verdade científica se o resultado de tudo o que existe na natureza de uma causa é eterna. A ciência abriu nossos olhos para vários fenômenos estranhos da natureza. A teoria das vibrações é considerada pelos físicos a uma extensão alarmante. Eles nos dizem que isto é, literalmente e matematicamente verdade que você não pode atirar uma bola no ar sem abalar o sistema solar. Ou seja, tudo está correlacionado com tudo o que há. O que é verdade no tempo tem de ser verdade no espaço, e as leis da física podem ser verdadeiras no mundo espiritual. Quando a alma do homem se liberta de seu corpo, libertando-se das grosseiras amarras da carne, ela pode penetrar numa vida milhares de vezes mais intensa do que esta: na qual ela não necessitará dos opacos sentidos como avenidas do conhecimento porque o espírito, por si só, será só olhos, só ouvidos, só inteligência; completa memória, como uma descarga elétrica, trará, num instante, todo o passado na sua visão; e o senso moral será mais rápido do que antes. Aqui, portanto, teremos todas as condições ideais de retribuição - um mundo, no qual, por mais nebuloso que possa parecer, é tão real quanto as habitações e atividades do nosso; com a memória trilhando os atos de uma vida passada, e consciência, mais inexorável do que qualquer juiz, dado seu solene e definitivo veredicto.

Considerando estas condições, vamos mostrar uma situação que despertará sua justa indignação - que um homem cruel, impiedoso e egoísta; que sacrifica o interesse de todos em beneficio próprio; que ri da cara do pobre; que rouba da viúva e do pobre o pouco que têm; e aquele que, em vez de devolver, morre com seus ganhos desonestos nas suas mãos entrelaçadas. Quanto tempo será necessário para apagar da memória esta vida maléfica? Se ele acordar as lembranças ainda não estarão consigo? Haverá águas purificadoras que apagarão sua alma imunda? Se não - ele não esquecerá - ele não conseguirá se perdoar nem reparar nem o mais discreto deslize que tenha cometido. Aqui está uma retribuição que é inseparável do ser, a que é uma parte de sua existência. A lembrança eterna leva à dor eterna.

Tomemos outro exemplo - aliás! Infelizmente muito freqüente. Um homem, por puro prazer, trai uma mulher jovem, inocente e confiante, com promessas de amor, e depois a abandona, deixando-a degradar-se por todos os degraus da vergonha e miséria, até que ela se perca nas profundezas, e desapareça. Ele não deve sofrer pela sua pobre vítima? Pode ele livrar-se desse peso fugindo para além de onde nenhum viajante retorna? Não, mesmo que ele fuja de si mesmo: no mais baixo submundo - onde o sol nunca brilha, a imagem nunca o abandonará e o perseguirá. Nem que ele percorra as sombras, uma pálida forma deslizará junto, como um fantasma assustador. A face é a mesma, linda mesmo na dor, mas com um ar de quem já sofrera uma eternidade de dor. Num instante, todo o passado está de volta. Ele vê a jovem, mãe amaldiçoada vagando em algum lugar solitário, de tal modo que só o céu vê sua agonia e desespero. Lá ele a vê abraçando seu filho nos braços, o bebê que não tinha nenhum direito de ter nascido, e clamando a Deus para fazer justiça contra seu agressor. Que distância devemos percorrer no futuro, para esquecer esta cena? Haverá alguma outra solução que não seja mergulhar no poço do aniquilamento?

Até aqui, nesta carta, tenho procurado dar o tom do respeito. Mas eu não preciso que a religião cristã necessite de qualquer desculpa, -- ela só precisa ser melhor compreendida para que seja corretamente defendida. Em vez de considerar suas 'evidências', que nada mais são do que ir para fora dos muros, vamos entrar nos portões do templo e ver o que há lá dentro. Lá encontramos coisas melhores do que torres e vigias, no caráter daquele que é o fundador da nossa religião, e não apenas seus fundadores, mas todo o seu âmago e ser. Cristo é o Cristianismo. Ele não é apenas o "Grande Professor", mas o sujeito central do que Ele ensinou, de tal modo que o todo se erige e cai com Ele.

Na nossa conversa anterior, observei que, com todos os seus comentários duros sobre coisas sagradas, o senhor professa grande respeito pela ética do Cristianismo, e pelo seu autor. "Faça o Sermão da Montanha a sua religião", o senhor afirmou, "e eu estarei com você". Muito bem! Até aí, ótimo! E agora, se o senhor for um pouco mais além, encontrará um pouco mais de alimento para reflexão.

Todos aqueles que estudaram o caráter e os ensinamentos de Cristo, mesmo aqueles que negam categoricamente o sobrenatural, maravilham-se diante da figura gigante que aqui se revela. Renan fecha sua obra "A vida de Jesus" com isto que é o resultado do seu estudo: "Jesus nunca será superado. Sua adoração continuará sendo renovada sem cessar; sua história (lenda) arrancará lágrimas de belos olhos, incessantemente; seu sofrimento tocará as naturezas mais delicadas; todas as épocas proclamarão que entre os filhos dos homens nunca nasceu ninguém maior do que Jesus. Sócrates morreu como um filósofo, mas Jesus morreu como um Deus."

Este é um argumento pela religião que eu rezo que o senhor envie a si mesmo. Como o senhor não crê em milagres, e está determinado a esclarecer as coisas por causas naturais, eu peço que nos diga como aconteceu que um pobre hebreu, nascido nas montanhas, tinha uma sabedoria acima da de Sócrates e Platão, Confúcio e Buda? Este é o maior dos milagres, que este ser tenha vivido e morrido na face da terra.

Já que este é o principal argumento da religião, se considera que alguém se decide a destruí-la para se colocar na posição central, em vez de perder seu tempo com meras exclamações? Da próxima vez que o senhor se colocar diante de uma grande platéia ávida em ouvir suas palavras, seria desonesto pedir para deixar de lado estas questões familiares como fantasmas e milagres, ou responder a Talmage, ou dizer-nos o que o senhor acha de Jesus Cristo? Se o senhor o vê como um impostor, ou meramente um sonhador - um simples e inofensivo agitador? Ou o senhor está pronto para reconhecer que ele pode ser considerado como o grande professor da humanidade?

Mas se o senhor se sentir compelido a admitir a grandeza de Cristo, o senhor se vingará nos apóstolos que o senhor não hesita em dizer que não leva em consideração. De fato, o senhor os classifica como uma "pobre corja". É verdade que aqueles pareciam uma inútil 'corja', um bando de pescadores, para se escolher como apóstolos de uma religião - parece tão inadequado como escolher trabalhadores de ferrovia como chefes de uma nação diante de uma grande crise de sua história! Mas em ambos os casos parece haver uma sabedoria maior que a nossa, que escolhe melhor que nós. Parece confundir mais o senhor dar uma definição de religião como esta do apóstolo James: "Pura religião, descrita diante de Deus e o Pai é esta: visitar os órfãos e viúvas nas suas aflições e se manter imaculado diante do mundo"; ou encontrar entre aqueles sábios da antiguidade, cujos escritos o senhor conhece bem, uma mais completa e perfeita delineação daquilo que é a essência da bondade e virtude, do que a descrição de Paulo da caridade que 'sofre demasiadamente e é suave'; ou encontrar nos escritos de Confúcio e Buda algo mais sublime do que este aforismo de João: "Deus é amor, e aquele que mora no amor mora em Deus, e Deus está nele."

Aqui o senhor deve me permitir fazer uma observação que não deve ser vista como uma provocação pessoal, mas simplesmente no interesse da verdade, a qual nós estamos comprometidos em buscar e valorizá-la mais do que a vitória. Sua linguagem é muito lastimosa para representar o cuidado de um pensador cuidadoso que mede suas palavras e as pesa numa balança. Suas preleções me lembram as gravuras de Gustave Dore, que preferia pintar em telas imensas, com figuras tão gigantescas como aquelas de Michelangelo em seu "Juízo Final". O efeito é poderoso, mas se ele suavizasse as cores um pouco, -- se as cores fossem mais delicadas, uma gradação de luzes e sombras, como quando escurece na terra -- as paisagens seriam mais fiéis à natureza. Então, acredite, suas palavras teriam mais vigor se não fossem tão pesadas. Mas quando o senhor fala de religião parece perder o controle de si, e um sentimento de vingança toma conta da sua pessoa, o que faz com que veja as coisas de modo distorcido da sua aparência natural, de modo que o senhor se transforma numa figura caricata. O senhor desfere sentenças da mesma maneira como um lenhador usa seu machado. Claro que esses seus golpes fazem muito sucesso em audiências populares, que não estão muito preocupadas em fazer distinções, ou em evidências do que deve ser considerado e pesado, mas desejosos de opiniões em segunda mão, e que gostam de ver suas opiniões e preconceitos ecoados numa voz eloqüente. Isto entusiasma a platéia, mas não convence uma mente filosófica. Uma pessoa que busca a verdade não corta uma estrada numa floresta com explosões violentas; ele tem um trajeto bem planejado para percorrer, e deve traçar seus passos de maneira cuidadosa e gradual, para achar aquele caminho que é mais precioso do que o ouro.

Mas se fosse possível para o senhor descartar para sempre as evidências do cristianismo, o senhor não jogou fora simplesmente o cristianismo; ele ainda vive, não apenas na tradição, mas nos corações das pessoas, envolvido em tudo o que há de mais doce nas suas vidas domésticas, aquilo que deve ser arrancado com mãos violentas antes que possa ser exterminado. Para começar, o senhor dá as costas para a história. Tudo o que os homens têm feito e sofrido pelo bem da religião foi à toa. Os peregrinos que cruzaram os mares para encontrar liberdade de crença, nas florestas do novo mundo eram miseráveis fanáticos. Não há mais espaço no mundo para heróis e mártires. Aquele que sacrifica sua vida pela fé, ou por uma idéia, é um tolo. A única virtude moral é ter um olho esperto para aproveitar a grande chance. Se o senhor continuar seu trabalho de demolição, o senhor em breve destruirá todos os nossos ideais. A vida familiar murcha sob o frio desprezo - meio piedoso, meio cínico - como o senhor vê a adoração doméstica, tiradas das lareiras americanas, aquelas cenas como retratadas pelas noites de sábado de Cotter, e o senhor terá roubado delas as mais sagradas horas de suas lembranças.

O mesmo espírito destrutivo que se intromete nas nossas casas, assim como nossa vida religiosa, levaria embora a beleza de nossas vilas, assim como os mais doces de nossos lares. Na luta cansativa de uma semana de trabalho, há um intervalo de descanso; o trabalhador deixa de lado sua carga, e por umas horas respira um ar sereno. A manhã de sábado chegou.

"Doce dia! Tão fresco, tão calmo, tão claro,
o casamento do céu com a terra.."

Na hora marcada dos sinos que tocam ao longo do vale, e enviam seus ecos ao longo das montanhas; e de todas as estradas as pessoas vêm caminhando para as igrejas das vilas. Ali elas se reúnem, velhos e jovens, ricos e pobres; e quando eles se unem no mesmo ato de adoração, sentem que Deus é o criador de todos eles. Haverá em nossa vida nacional qualquer influência mais sublime do que esta que mais contribui para a união comunitária? Para promover o sentimento de vizinhança? Para suavizar as maneiras das pessoas? Para semear a verdadeira cortesia, e tudo o que torna uma comunidade cristã diferente de um bando de índios wigwams - uma comunidade civilizada diferente de uma tribo de selvagens?

Tudo isso o senhor destruiria; o senhor aboliria o sábado, ou apenas o transformaria num feriado; o senhor destruiria as velhas igrejas, tão cheias de suaves associações dos vivos e dos mortos. Ou pelo menos o senhor a tosquiaria, tirando fora as torres que apontam para o céu; e o seu interior seria transformado em salas de reunião - um locar de diversões, onde os jovens se casariam, exceto na época de verão, quando eles o usariam como salões de baile! Assim o senhor conquistaria seu objetivo. Mas seria essa uma comunidade mais ordeira, mais feliz?

O senhor pode considerar isto como mero sentimento - que nos preocupamos mais com o pitoresco do que com a verdade. Mas há uma questão que é assustadoramente real: a crença destrutiva, ou a não crença, que desgraça nossas igrejas e nossos lares, ataca a sociedade nos seus princípios, levando embora seus apoios morais. Não acredito que a moralidade possa ser sustentada sem a sanção da religião. Pode haver indivíduos de grande força natural de caráter, que podem se sustentar sozinhos - homens de intelecto superior e de forte arbítrio. Mas em geral a natureza humana é fraca, e a virtude não viceja espontaneamente da inocência infantil. Homens não se tornam puros e bons por instinto. O caráter, como a mente, deve ser desenvolvido pela educação; e ela necessita de todos os elementos de força que só podem ser dados de fora e de dentro, do governo dos homens e do governo de Deus. Abandonar essas amarras seria um perigo para a moralidade pública.

O senhor se sente forte na força de uma robusta masculinidade, bem pesadas no corpo e na mente, e no centro de um lar feliz, no qual corações amorosos se cercam do senhor como as videiras se abraçam ao carvalho. Mas muitos daqueles para quem o senhor fala são diferentes. O senhor se dirige a milhares de jovens vindos de casas no interior, onde eles foram criados temendo a Deus, e ouviram pela manhã e a noite as orações. Eles vêm para uma cidade cheia de tentações, mas são afastados do mal pelo pensamento do pai e da mãe, e reverência por aquele que é o Pai de todos nós - sentimentos que, mesmo não tendo tomado a forma de uma profissão, está no fundo dos seus corações, e os mantêm longe de muitos erros e passos em falso. Um homem jovem que é guardado e defendido por anjos invisíveis, em alguma ocasião, ao se sentirem solitários, são convidados a ver e ouvir o senhor Ingersoll, e por algumas horas ouvem suas caricaturas da religião, e suas descrições de rezas e salmos, ilustradas por caretas e tons anasalados, que enchem a sala de gargalhadas e gritos, e são recebidos por ruidosos aplausos. Quando tudo termina, e o jovem se acha novamente sob a tênue luz dos lampiões de rua, ele está consciente de uma mudança; a fé de sua infância foi bruscamente arrancada de si, e com ela "uma glória se foi do mundo". A bíblia que sua mãe lhe deu, a manhã em que ele se foi, é um 'monte de fábulas'; a sentença que ela gostaria que ele colocasse na parede "Vós, Deus, me vedes" perdeu sua força, porque não há nenhum Deus que o vê, nenhum governo moral, nenhuma lei e nenhuma recompensa. Então ele raciocina enquanto toma o caminho de casa, encontrando as tentações que o espreitam nas ruas da cidade - tentações que até então lhe causavam arrepios, mas que agora ele encara com uma força de resistência diminuída. Será que o senhor fez algum bem a esse jovem tirando dele tudo o que considerava sagrado até então? Será que o senhor não o tornou moralmente enfraquecido? Ridicularizando a religião se está a um passo de ridicularizar a moralidade, e então a um passo de uma carreira de vícios e devassidão. Como o senhor consegue impedir esta tendência ao declínio? Quando o senhor tirou dele as amarras da contenção, o senhor deixa em seu lugar alguma coisa, além de um sentimento de honra, respeito de si e interesse próprio? - motivos válidos, sem dúvida, mas muito débeis para impedir as assustadoras tentações que o assaltam. Seriam suas chances de resistência agora tão fortes como antes? Olhe como ele agora anda pelas ruas à meia noite! Ele anda pelos lugares onde o mal espreita, onde há bebidas e vícios, aquelas bocas abertas do inferno; ele ouve os sons de música e dança. E pela primeira vez pára para ouvir. Até quando ele vai resistir para entrar?

Com esses perigos no caminho, é uma grande responsabilidade desfazer as amarras que prendem esse jovem homem na virtude. Esses deboches e ironias que o senhor usa tão freqüentemente podem causar um eco triste num caráter perdido e numa vida destruída. Muitos jovens homens já estavam em local seguro, até que foram puxados para a beira do cais, sob o pretexto de ganhar a 'liberdade', e aventurando-se entre as cachoeiras, sendo levados pela correnteza, para se destruir no redemoinho lá em baixo.

O senhor diz que seu objetivo é tirar o medo do mundo. É uma nobre ambição; se for bem sucedido, o senhor será de fato um libertador. Claro que o senhor se refere a medos irracionais. O senhor não tiraria do homem o medo de violar a ordem da natureza; porque isto o levaria a incalculável miséria. O senhor se refere apenas ao medo nascido da ignorância e superstição. Mas como o senhor acabará com eles? O senhor confia no progresso da ciência, que já tem descartado tantos medos surgidos de fenômenos físicos, mostrando que calamidades que eram atribuídas a forças espirituais são explicadas por causas naturais. Mas a ciência só pode progredir num caminho, além do qual esbarra na esfera do desconhecido, onde tudo é escuro como antes. Como o senhor pode aliviar os medos dos outros - e na verdade, como o senhor pode aliviar seus próprios medos, acreditando, como o senhor, faz, que não há nenhuma Força que possa ajudá-lo em situações extremas? Que o senhor é o resultado de um acidente, e que pode ser feito em pedaços pela força cega da natureza? Se eu acreditar nisso, eu me sentiria estando engasgado numa gigante engrenagem que me esmagaria como átomo, sem qualquer possibilidade de escapar.

A religião não deixa o homem aqui na terra, desamparado e desesperançado - aterrorizado, como se estivesse na mais completa escuridão como o seu destino - mas abre o céu diante dele, ela descobre uma Grande Inteligência, que orienta todas as coisas, vendo o fim pelo princípio, ordenando nossas pequenas vidas de tal modo que até as contrariedades que sofremos quando despertam os finos elementos do caráter, conduzem para nosso futuro e felicidade. Deus é nosso Pai. Nós olhamos para sua face com um rosto infantil de confiança, e descobrimos que seu papel é a perfeita liberdade. "O amor expulsa os medos". Este, eu asseguro ao senhor, é o caminho e o único caminho que poderá tirar do homem esses medos que durante toda a sua vida o submete à escravidão.

Em seus ataques à religião, o senhor violenta sua própria humanidade. Conhecendo o senhor como eu conheço, sinto que o senhor não percebe para onde seus ataques se dirigem, ou quem eles ferem, ou o senhor não usaria suas armas tão livremente. As crenças do homem são algo tão sagrado como os mais delicados sentimentos de amor e honra. Eles são preciosos como as faces queridas que passam por nossas vidas. Eu penso no meu pai e na minha mãe desejando respeito pela memória e seria cuidadoso em falar da fé que eles alimentaram nas suas vidas. Claro que isso é só abstração. Não acho que o senhor sinta prazer em causar dor. Não posso esquecer a mão delicada apoiada no seu ombro, e a voz carinhosa que disse: "Tio Robert não seria capaz de matar uma mosca". E, no entanto o senhor rasga as mais delicadas sensibilidades, e pisa sobre o que é mais querido por milhões de sobrinhas e filhas e mães, pequenos exemplos de que o senhor está brincando com as vidas de criaturas humanas.

O senhor está levando a cabo uma batalha perdida - uma batalha na qual o senhor será o único perdedor. A religião cristã começou quase dois mil anos antes de nós termos nascido, e ainda sobreviverá dois mil anos depois da nossa morte. Por que será que ela sobrevive por tanto tempo, mesmo depois que impérios e reis perecem? Não se fala em "sobrevivência dos mais aptos"? Lutando contra ela com toda a sua eloqüência e ironia, o senhor falhará, como todos falharam antes do senhor. O senhor não pode lutar contra os instintos da humanidade. É natural para o homem olhar para a Força Superior, como se olha para as estrelas. Diga a eles que não há nenhum Deus! O senhor pode dizer também que não há nenhum sol no céu, mesmo vendo que toda a vida na terra depende dele.

Não diria que acho que posso convencer o senhor, ou mudar sua opinião; mas sempre valerá a pena apelar para a sóbria consciência de um homem - para aquele julgamento final que acontece com o aumento de nossos conhecimentos, na medida em que os anos passam; e eu não abandonarei minha esperança de que o senhor, no futuro, possa ver as coisas de modo melhor, mais claro, e reconheça o erro que vem cometendo ao confundir religião com superstição - duas coisas tão distantes como este local onde estamos até o longínquo pólo. A superstição é a grande inimiga da Religião. É o pesadelo da mente, preenchendo-a com os mais assustadores terrores - uma nuvem negra que paira sobre a metade do mundo. Contra isto o senhor está correto em invocar os conhecimentos da ciência para iluminar a escuridão. Aquele que possa fazer algo para eliminá-lo é um benfeitor da humanidade. Mas quando isto é feito isoladamente e a natureza moral é tornada pura e doce, então o senhor e eu estaremos certos de uma Presença chegando, como a Religião, filha dos céus, trazendo a paz e boa vontade para os homens.

Henry M. Field